Era uma chefe durona, exigente com a sua equipe e também com pares e superiores. Não era dada a intimidades. Não comentava sobre a sua vida fora do trabalho nem queria saber sobre detalhes pessoais de quem a cercava.
Nos corredores, comentavam sua semelhança com uma árvore sobrevivente de um incêndio na floresta. Seca, maltratada, sem beleza. Nada nela poderia florescer. Sua indiscutível resistência servia apenas como lem...

Confesso que me surpreendi com o rancor matinal de Márcia:
- Vou matar esse galo!
Ainda zonzo diante da luta entre o despertador do celular e o resto de sono, demorei para entender sobre o que minha esposa falava. Ainda que me sentisse aliviado por não ser o objeto daquele desejo assassino. Foi quando ouvi um co-co-ri-có alto e claro. Parecia a trilha sonora do meu sonho.
- De novo! Começou antes das três da manhã.
O...

Procurando uma conta na pasta que carrego todo dia entre a casa e o trabalho, me deparo com um amarelado Segundo Caderno de O Globo. Guardei aquele pedaço de jornal amassado por causa da resenha sobre o único romance do autor teatral e roteirista de cinema Sam Shepard. O livro – publicado meses antes de sua morte – pareceu-me interessante. Mas o que me encantou foi o trecho final do texto do crítico literário Victor da Rosa (n...

Conheci os dois no aniversário de uma amiga comum. Pareceu-me um casal normal, levemente imperfeito como os relacionamentos sadios devem ser. Ela falava mais, por vezes atropelando as intervenções que ele tentava fazer. Parecendo acostumado, não lhe causava irritação. Longe disto. Seus olhos transmitiam até alguma satisfação por não ser obrigado a ter uma opinião. Livres, aqueles olhos procuravam na festa algo que – até onde a...

Acredito que existe algo mágico nas coincidências. Pode ser tudo um truque, mas isto não diminui em nada a minha fascinação pelo espetáculo.
Do nada, você se lembra de alguém que não encontra há anos. No instante seguinte, chega uma mensagem de WhatsApp (no passado, o telefone fixo tocava...). É aquela pessoa desaparecida, convidando para o casamento, para o aniversário do filho ou apenas dizendo que sente saudade.
V...

- Você é equilibrado demais!
Costumava receber estas palavras como elogio, quando outros tombavam sob a pressão e eu conseguia manter o controle. Mas o tom do meu colega de trabalho não deixa dúvidas. Ele acha que eu deveria ter partido a cara – figurada ou literalmente – do nosso interlocutor na reunião.
Não faltariam justificativas para a violência. Afinal, a reunião era com um fornecedor interno. Aquele ser despre...

Os festivais da canção estavam no auge, ali bem perto, no Maracanãzinho. Porém, aos seis anos, só sabia que a música “Cantiga por Luciana” não parava de tocar no rádio.
Achava muita coincidência que se chamasse Luciane a menina que morava no meu prédio e que todos diziam ser minha namorada. Sentia-me orgulhoso no papel de namorado. Apesar de companheiros de brincadeiras na pracinha e no térreo do edifício – eram tempos em que...

Heleno – vocês irão entender os motivos que me impedem de revelar o nome verdadeiro – é daqueles seres que todos acham fácil de se relacionar. Bem-humorado, tranqüilo, confiável, sem manias insuportáveis nem defeitos ou virtudes incontornáveis. Como Ruivo bem definiu certa vez, uma pessoa soft.

Para que não pairassem dúvidas sobre o termo, o próprio Ruivo completou: 

- Brinco com minha mulher que ele é tão legal que, se pudesse,...

De frente para o copo com a dose dupla de Jack Daniel’s intocada, meu amigo desabafa:

- Eu vi. Os dois saíram caminhando, lado a lado, aquela conversa tipo bolha. Isolados de tudo. Pessoas, carros, paisagem, tudo estava do lado de fora. Ela sorria como se fosse uma camponesa passeando num campo de trigo.

Não compreendo o desespero, mas fico impressionado com o gelo já quase totalmente derretido no copo e, principalmente, com aqu...

Somos culpados por tudo que acontece conosco. Até tiro pelas costas.
O pensamento pode ser acusado de mau gosto em tempos de tantas balas perdidas. Mas seu aparente exagero já me salvou e pode também salvar meus sofridos conterrâneos deste Rio de Janeiro. Salvar-nos de algo ainda pior do que a vergonha, a ruína econômica, a violência, a destruição de instituições, a falsa finesse destes malandros de terceira categoria. Salvar-...

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Luís Eduardo P. Basto
Jornalista