Parem as máquinas!

13/05/2016

Eram quase sete da manhã quando a notícia tomou forma: o Senado aprovara a abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Roussef, interrompendo 13 anos de gestão petista. Acompanhando ao vivo pela televisão, como boa parte da população deve ter feito, e com a tarefa de informar aos leitores do Diário, a frase me ocorreu imediatamente. Parem as máquinas!

Era com esse grito que os editores paravam as rotativas para incluir uma “bomba” de última hora. As máquinas cuspiam os jornais aos milhares, embalando informação como mercadoria, enfeitada por comentários, bastidores, e detalhes sórdidos. Notícia quente vendia muito.

Depois que os antigos arautos foram substituídos pelos “éditos” - aqueles cartazetes afixados em praça pública com os decretos do rei -, a palavra escrita roubou a prerrogativa da fé pública, e nem os novos arautos eletroeletrônicos do século XX (a televisão, o rádio e o cinema), conseguiram expurgar da palavra impressa sua dominância absoluta como difusora de informação e campeã da credibilidade.

A notícia falada pode despertar o interesse por um assunto, ou propagar com grande velocidade informações superficiais, mas a absorção do conteúdo, a reflexão sobre as notícias, sempre foi território privativo da palavra impressa. Não por acaso, os veículos noticiosos e de informação ainda são chamados de “imprensa”.

A vocação da TV e do Rádio acabou sendo a revista, o espetáculo. E isso formatou conteúdos, estética e o tratamento da informação. Mesmo nos canais de notícia, se elas forem veiculadas sem os seus componentes estéticos, não se sustentam.

A revolução - ou salto quântico da informação - se deu quando a tecnologia fundiu a transmissão da imagem com a escrita, e empacotou tudo à velocidade da luz.

Ao consorciar o processamento instantâneo de dados com a sua transmissão por IP (protocolo de internet), somando-se às bandas largas e à nuvem, o mundo colocou em curso uma transformação que está muito longe de sequer conhecer seus caminhos, quanto mais os seus limites.

Mas, como quase tudo nos dias atuais (tempos líquidos, como diz mestre Bauman), nada disso está absolutamente consolidado, definido e definitivamente bem acabado. Na verdade, está tudo, menos acabado.

Acabando mesmo estão os veículos impressos, com suas estruturas caríssimas de apuração e tratamento da informação, logística sofisticada e muitos desperdícios. Não são poucos os jornais fechando ou migrando completamente para as plataforma digitais.

A questão é que eles querem trocar o papel pela telinha, mas continuar fazendo o mesmo tipo de jornalismo. E isso nos leva de volta à questão da entrega de informação aos leitores, num mundo caracterizado pela acessibilidade instantânea a qualquer conteúdo, e a posse de um controle remoto.

Então tudo vai convergir para o Twitter e o Facebook? As notícias terão cento e poucos caracteres como limite, o os códigos escritos só poderão ocupar 30% do espaço preenchido por uma imagem?

A verdade é que há leitores para todo tipo de informação. Cada suporte determina e caracteriza seu conteúdo. E a sociedade do espetáculo espetaculariza também a notícia.

Mas hoje os espectadores da televisão alternam (zapeiam) novelas e jornalísticos com seus programas preferidos de culinária e talk shows. Tudo ao mesmo tempo, em pouco tempo. Se entopem com a enxurrada de besteirol e conteúdos relevantes das mídias sociais, e já leem mais em tablets e computadores do que em papel.

Por isso, talvez, surjam e desapareçam veículos de comunicação a cada minuto na rede. Blogueiros, youtubers. Todos os portais da grande imprensa já dão maior espaço às fotos, vídeos e podcasts, do que ao próprio texto. Esse, cada vez mais vai se tornando legenda.

O que ainda não foi encontrado é o formato definitivo. Aquele que vai reter o “leitor” (que na web se chama usuário) pelo tempo necessário para fideliza-lo e, com isso, construir uma audiência. Isso pode ser uma combinação de tom, tamanho, foco, credibilidade e, acima de tudo, disponibilidade de tempo para ser "fisgado".

Essa é a nossa proposta no portal. Não queremos repetir do mesmo. Por isso não noticiamos a principal notícia do ano no dia de hoje. O que estamos buscando, e queremos estampar nessas páginas, são as pedras do seu caminho. Seus vizinhos estranhos, as ruas escuras e mal cheirosas por onde você costuma passar, os podres da administração pública, o gol que classifica o seu time.

Por isso fizemos a brincadeira com o nome do portal: Diário da Província.

Com as informações fluindo à velocidade da luz, mudando tudo a cada segundo, “jornais diários” são como as tabuletas sumérias. Não, nós não vamos competir com a grande imprensa, nem ganhar das rádios em velocidade. Nosso foco é a informação e a opinião; factual, mas não datado.

Da mesma forma, com as fronteiras destruídas pela globalização, não há que se falar em “província”, a não ser para falar de território de pertencimento, de proximidade, de tribo.

Nosso portal é uma prateleira de informações em busca de olhos inteligentes.

É o seu cérebro que nós queremos parar para trocar as matérias de última hora.

 

 

 

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