O custo impagável dessa crise

18/05/2016

Todo dia aparece alguém na mídia pregando o abandono do voto.

Alguns respeitados formadores de opinião chegam a se vangloriar do fato de que sequer justificam a ausência - preferem pagar a multa de R$ 3,50 a expressar qualquer coisa, ainda que fosse a inconformidade através de um voto nulo.

Como em toda falácia, os argumentos são plausíveis e bem fundamentados: desilusão com a classe política.

Mas são enganosos em sua essência.

Não será deixando de votar que alguém vai melhorar a democracia. E não se conhece (ainda), regime melhor do que esse.

Há alguns anos, logo que o professor Carlos Lessa deixou a presidência do BNDES, ainda no primeiro governo Lula, eu o entrevistei num encontro de Leituras Compartilhadas, no Sesc Rio, sob o tema Desordem.

Ele cunhou uma dessas frases de efeito, de fácil absorção, que a cada dia ganha mais e mais sentido: “no Brasil, a elite desvaloriza a política para baratear o voto”.

Sábias palavras.

Estamos em plena época de escolha dos candidatos às câmaras municipais, espécie de berçário político onde se inicia a vida pública dos mandatários por voto.

Ao invés de estarmos empenhados na valorização dessa ferramenta democrática, debatendo o aperfeiçoamento das eleições, ou o próprio sistema representativo, como a adoção do tal voto distrital ou  a reforma política, nos empenhamos em torcer o nariz para os que se candidatam, desdenhar dos eleitos e ridicularizar sua bizarrice.

Foi disso que se tratou, por exemplo, depois da votação do processo de impeachment na Câmara..

Criticava-se abertamente que nossos Deputados tivessem misturado Deus e Família com o Estado, como se todo o conceito de Estado e de família não derivassem do conceito de direito divino; como se Engels não tivesse existido.

E todo aquele desdém só realimenta a falácia: votar pra que?

Como essas pessoas reagem e se comportam em seus condomínios? Não votam no síndico?

Como cuidam de seus filhos nas escolas? Não comparecem aos Conselhos de Classe?

Reclamam de privilégios pelos cantos? Falam mal dos que ficam com a melhor parte? Isso adianta alguma coisa?

Nessas últimas décadas a representação política, especialmente nos legislativos, deixou muito a desejar. Estão aí as figuras patéticas de Severino Cavalcante e Waldir Maranhão (para não entrar no dito “baixo clero”), que realmente desanimam até os mais otimistas.

Mas como melhorar a qualidade do nossos homens públicos, como exigir deles mais preparo e comprometimento, se justo os que poderiam neutralizar essas candidaturas com um voto mais crítico, mais qualitativo, resolve “deixar pra lá”?

Precisamos destruir esses mecanismos de manipulação.

O exercício da cidadania se faz muito mais pela fala do que pela escuta.

Não será deixando de votar que teremos mais ou melhor representatividade política.

A anarquia só é boa como exercício de retórica. Na prática, fede.

Comecemos a mudar já nessa eleição.

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