O Pagador de Promessas

Proposta de narrativa partidária para o golpe de Cannes.

Talvez a matéria abaixo já tenha saído, com outras palavras, em um blog progressista, site companheiro ou revista eletrônica não golpista, mas tudo indica que a política externa neoliberal de Serra já esteja dando frutos. Uma fruta e um fruto para ser exato e não errar no gênero. E fruta, cabe destacar, no estrito sentido metafórico imagético imortalizado pelo injustiçado coração valente, nunca na pejorativa conotação homofóbica, uma das incontestáveis conquistas sociais dos governos populares de Lula e Dilma.

Como explicar que o filme Aquarius, obra-prima do realismo pernambucano pós-refinaria de U$ 20 bilhões, ambientado na Praia de Boa Viagem, não tenha levado o prêmio? O som ao redor do festival foi de vaias e panelaços. E como entender que Sônia Braga perdeu para uma filipina sem expressão, sem lotação e talvez sem nenhum mísero marido vivo ou morto?

Como acontece nos cargueiros em que a tripulação vem de lá, decerto a moça estava subempregada nessa produção exploradora, sem direitos trabalhistas e sem os devidos encargos sociais que agora Temer & Cunha planejam subtrair das atrizes em particular e dos trabalhadores de uma maneira geral para entregá-los ao capital financeiro internacional.

Quem leu a sinopse do extra-longa-metragem de 2h 20min, montado com recursos do MinC para baratear o custo por minuto sabe que houve má-vontade contra o roteiro neorrealista.

O fato concreto é que a academia francesa, braço reformista burguês onde lecionou FHC, não gosta de filmes sobre a classe média emergente que tomou o Nordeste, cuja pujança econômica provocou a luta por um novo prédio no lugar do antigo edifício onde vivia a personagem vivida pela estrela golpeada pelo fascismo do júri travestido de social-democracia. Os distribuidores associados que controlam os resultados do festival por meio de seus interesses inconfessáveis têm saudades do sofrido semiárido dos tempos do último vencedor brasileiro, O Pagador de Promessas.

O júri tomou a vitória das mãos de quem, hoje, produz vinhos melhores que os franceses. Puro despeito pela excelência de nossas duas safras anuais, exclusividade de regiões que contam com 330 dias de sol por ano.

Se os jurados suspeitos esperavam miséria, que fiquem com a palma de ouro, mas levem também a similar que, por muito tempo, sustentou a pecuária de subsistência da caatinga. Erradicada a miséria, a palma local não mais é necessária para alimentar o gado esquelético com a forragem dela produzida. Tudo graças ao rico agreste irrigado pela transposição do Rio São Francisco, principal obra do PAC, inaugurado conforme mostra o emocionante filme-verdade produzido pelo preso político João Santana às vésperas das eleições de 2014.

Dá para desconfiar do motivo pelo qual o excelente Aquarius tenha perdido para um filme que traz a história de um marceneiro inglês que quase morreu quando sofreu um infarto quando trabalhava na... Serra. Cheira a um involuntário merchandising político.

Temos um filme pronto faz tempo; sem palma, dedo mindinho ou patrocínio estatal, baseado na vida de um metalúrgico. Pois esse premiado longa-metragem sobre o filho do Brasil jamais ganhou nada além de acusações levianas.

54 anos depois da única vitória, graças às reformas de base patrocinadas por Jango, o pagador de promessas de hoje não se chama Zé do Burro, mas Zé Serra, que de burro não tem nada.

Para que os cartazes que denunciaram o golpe ao mundo não fossem exibidos na premiação do festival, o Itamaraty prometeu a entrega do pré-sal. Não vai ter golpe; vai ter luta.

 

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