Sobre biografias, um ano depois

Ninguém sabe tudo de si mesmo e, se sabe, não revela, garantia o escritor Stefan Zweig, um dos maiores biógrafos do nosso tempo. Poderia acrescentar: maldito aquele que sabe tudo de si mesmo. “O mais importante acontecimento na vida de um homem é o momento em que se torna consciente do seu eu; as consequências disto podem ser as mais benéficas ou as mais terríveis”, temia Liev Tolstoi.

O biógrafo Zweig examinou os tipos característicos do espírito criador, os “arrastados pelo demônio, fora de si mesmos, além do mundo real, no infinito”, como Hölderin, Kleist e Nietzsche, ou aqueles como Balzac, Dickens e Dostoiewsky, “representantes dos que sabem colocar junto ao mundo real outro mundo, como uma segunda realidade”.

Biografia não é puro relato historiográfico nem pura ficção: é quase ciência psicológica, que tenta investigar a profundidade da alma e penetrar na consciência do biografado, fazendo a dissecação do seu espírito e estabelecendo as reais conexões entre sua inspiração divina, baseada na experiência de vida, na postura e no aprendizado, e sua obra e legado geniais.

Zweig admite que é tarefa quase impossível. E dá o exemplo de Goethe, que pôs em sua biografia um título cuja significação é a heroica renúncia da verdade absoluta: chamou-lhe “Dichtung und Wahrheit” (Poesia e Verdade), o que, “por si só, vale uma grande confissão”.

Stendhal foi o primeiro a reconhecer a falta de honradez da memória e a impossibilidade de ser absolutamente fiel à verdade. “Pedir sinceridade absoluta é tão insensato como pedir justiça completa, liberdade inteira, ou perfeição humana”. (Stefan Zweig, “Três Poetas de sua Vida”, Editora Guanabara, Rio de Janeiro, 1938).

Tolstoi, nas memórias, confessa-se ladrão, perdulário, crapuloso, femeeiro; essa, opina Zweig, é a mais normal prestidigitação da mentira: ocultar-se atrás da confissão..., pretender contar tudo para afinal não revelar nada.

A memória, ela mesma, varia inconstante com o tempo. A velha lembrança ainda mais velha se torna e ela mesma se surpreende, quando confrontada com igual situação noutro tempo ou noutro lugar. Marcel Proust, memorialista, procurava nas Madeleines da infância o metabolismo da memória perdida. Ao reencontrar a célebre atriz Berma, desempenhando o mesmo papel que tanta fama lhe dera e que tanto o marcara nos tempos de rapaz, viu nela tanta diferença que obscureceu a impressão primitiva.

Só vale a pena enquadrar como categoria literária a biografia de alguém cuja obra supera a pessoa, ainda que sejam narrativas homéricas de heróis míticos ou lendários, cujas façanhas, transmitidas pelas civilizações, inspiraram ou influenciaram outros grandes homens como os relatos de perfis históricos de Tucídides, Heródoto, Xenofonte ou Plutarco.

Biografias de artistas “populares” são vistas pelos editores como obras para “vender”. São projetos de marketing; raramente atingirão a categoria de obras literárias. São resultado de pesquisas que ou heroicizam ou demonizam exageradamente o personagem. O intuito é o de “vender” a imagem projetada para aquele mesmo público que a idealizou, ajudou a construir e pagou para consumir. Esses projetos mercadológicos têm muito a ganhar com polêmicas e proibições, que vão atrair públicos ainda maiores, gerando atenção que talvez não mereçam.

O público, aliás, é às vezes tão importante quanto o autor para a celebração de uma obra.

Onde quer que haja criação artística, haverá a ideia de público, a tal ponto que, nalguns casos, os dois se confundem e interdependem. Não significa que o sucesso, o reconhecimento e a admiração devam ser a meta de toda criação artística; mesmo no universo midiático do consumo instantâneo, alguns artistas têm tendência à reclusão, indiferença e até menosprezo à importância do público. Uns se recolhem, outros se escondem no álcool e nas drogas. Mas, assevera Ernst Kris, quando se estuda o aspecto inconsciente da criação artística, está lá alguma classe de público: o reconhecimento reafirma a crença do artista na sua obra, restabelece o equilíbrio do processo criador e “alivia a sua culpa”. (Psicoanalisis del Arte y del Artista, Editorial Paidós, Buenos Aires, 1964)

As biografias “autorizadas” são relatos de momentos edificantes de vidas edificantes. Algumas, além de “autorizadas”, são encomendadas por egos enormes, mediante pagamento, com o propósito de exaltação de um legado sem mácula e vício, “exemplum morale” a ser seguido e ao qual se deve justiça em letra de forma e formato de livro. São pura liberdade de expressão, embora confissões de pouco interesse.

Devemos ter consciência das limitações do conhecimento biográfico. A biografia somente assumirá categoria literária e função social, com adequada avaliação crítica, filológica e histórica das fontes de material pesquisado e da abordagem que lhe faça o seu autor. É que na análise do biografado cabe a distinção que faz Benedetto Croce entre a pessoa empírica e a pessoa estética do biografado; no caso do artista, importa a pessoa estética, o artista como criador da arte.

A biografia como obra literária - e não como panfleto, panegírico laudatório, obituário antecipado ou mero projeto de marketing editorial - é aquela que vai revelar ou ao menos se esforçar para revelar o poder mágico do artista, gênio prodigioso, semideus iluminado, Cristo ou Maomé, Buda ou Confúcio, Aristóteles ou Tomás de Aquino, César ou Alexandre, Leonardo ou Miguel Ângelo, Copérnico ou Galileu, Newton ou Einstein, Pelé ou Maradona, homens cuja obra, pelas circunstâncias e momento próprios, terá superado em muito o artista.

Um ano depois da discussão, continua assunto que não se esgota no simples “cala a boca” da “liberdade de expressão”.

 

Eduardo Simbalista é jornalista

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