Entre a Esperança e a Esperança, o desencanto de uma geração

Falo primeiro da falência das gerações: Acílio, irmão de Otto Lara Resende, falava da geração perdida entre as duas guerras, a primeira (14-18) e a segunda (39-45): dele mesmo, jovem ainda, de Otto, Paulo Mendes Campos, Murilo Rubião, Emílio Moura, Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Wilson Figueiredo, da geração de Cataguases...

Ouvia aquilo como um legado de desencantos vividos: “a bola agora está com vocês, a geração pós-guerra”. Era como se dissesse: para vocês, não haverá obstáculo, não haverá desafio que não possa ser vencido; afinal, Hollywood e SuperHomem estão aí, com todos os seus heróis e vilões aprisionados numa tela de cinemascope”.

Ruy, o Barbosa, quem dele se lembra, lembrava: “vos ides consagrar à lei num país onde a lei absolutamente não exprime o consentimento da maioria, onde são as minorias, as oligarquias mais acanhadas, mais impopulares e menos respeitáveis, as que põem e dispõem, as que mandam e desmandam em tudo”.

As gerações se perpetuam pelas conquistas que alcançam e pelos legados que deixam. 

Fomos os bebês johnson do pós-guerra, amamentados com maisena e turbinados com óleo de fígado de bacalhau.

A saúva e o analfabetismo eram nossos maiores inimigos, não a corrupção que era, num enunciado aristotélico, apenas “o maior nível de transformação a afetar um ente na região sublunar” (Aristóteles, De Generatione Animalium).

Tínhamos que mudar isso, tudo isso. Cabia à nossa geração. Com James Dean, Brigitte Bardot, Glauber, Darcy, Paulo Freire, o brotinho e a madame, conosco ninguém poderia.

Afinal, fomos os campeões de 58, depois bi, depois tri, depois tetra campeões, fomos os transviados do “brasa, mora”, elegemos Jânio, elegemos Collor, elegeremos Moro, espalhamos bolinhas de gude no caminho dos cavalos opressores da revolução opressora de 64, em armas e sem armas, perdemos amigos na guerra contra a ditadura, montamos as barricadas do desejo na Paris de 68, vimos cair o muro da vergonha.

E, aí, começamos a ver serem erguidos novos muros da vergonha, todos derivados do individualismo que leva ao quadrilhismo. A falta de caráter, a traição, o servilismo, o parasitismo, a adulação, o medo, a covardia, gerando, do outro lado, a injustiça e a intolerância. E nós, que deveríamos ser intolerantes, fomos tolerantes com o “nosso mundo melhor”, olhando para os nossos umbigos, correndo atrás do “ganhame” para educar nossos filhos para um “mundo melhor”.

A nos confortar, diziam que a crise não é nossa, é global. A falência das instituições também não é privilégio nosso: é padecimento universal. A pobreza, a desigualdade, não são apanágios nossos, são universais. O Legislativo? É balcão de negócios. A justiça? Essa não funciona em lugar nenhum. O Executivo? Outro balcão de negócios.

Somos de uma geração que não conseguiu organizar nem a miséria e vê escorrer pelos dedos os poucos avanços sociais conseguidos. Há um recuo inexplicável. Parece que o Brasil de 2016 repudia o Brasil de 2006, que repudia o Brasil de 1986 e quer voltar ao Brasil de 1946. Do rico conflito de gerações, restaram muxoxos latentes de como as novas gerações irão carregar o peso social de financiar esses “caros, caríssimos” velhos doentes e ranzinzas da velha geração.

Quando é mesmo que se envelhece (transformação) e se fica velho (estado)? O que separa uma geração que perdeu a esperança de uma geração na qual se deposita agora toda esperança, como legado?

Volto ao velho Ruy, na Oração aos Moços: “Toma: a esperança é tua, acalenta-a, mova-a, leve-a em frente”, mas, imploro, não legue à próxima geração um país ainda pior como o fez a nossa geração.

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