O pânico das manhãs depois da manhã seguinte

Século XXI, Morro dos Prazeres, Rio de Janeiro. A adolescente cromossomo XX acorda cercada por uma trintena de cromossomos XY. Podem ter sido 33, 30, 24, 10, 3, não se sabe, não viu, não contou direito.

Pela má fama, vestia aos 16 anos a fantasia de poderosa, loba exterminadora. Mãe aos 13, filha ela mesma, talvez, de outra gravidez involuntária, buscava a dor do prazer nesse ambiente funk em que amor é sinônimo de terror.

Não é um ambiente de fantasias idealizadas, de princesas que vão encontrar seus príncipes no sapo, de mulheres “normais” que vão buscar no casamento a “salvação”. XX não cresceu no mundo cordial das falsas intenções, mas no mundo cruel de predadores e suas vítimas.

A desconfiança é a regra: distanciamento, rejeição a qualquer tipo de relacionamento que implique em compromisso. Como os “homens incapazes de amar“, há também mulheres feridas que não conseguem amar, não podem dar-se ao luxo da entrega do amor com confiança. Porque não confiam.

Mas o “nosso” mundo também é de imperfeições, fraquezas, privações e fobias. 

Agora, XX é a adolescente que estuprou 33 bandidos. Os peritos não viram sinais externos que comprovassem ser ela vítima. XX perdeu a advogada assustada com a repercussão do caso.

Comprovada ou não, a tragédia traz ao menos uma luz para debate do problema. Que não é só do eventual estupro de uma “dimenor”, mas dos tempos da erotização precoce, da gravidez precoce, da violência precoce. Sinais da violência que estão todos aí à disposição dos peritos sociais.

Please reload