Ruivinha estonteante


A delação premiada de Cerveró, enfim publicada na íntegra, não revelou muitas novidades a quem vem acompanhando o processo desde as primeiras denúncias sobre as duas fases da compra de Pasadena, uma mais escandalosa que a outra. Contudo, partindo-se do princípio de que é procedente o dito de que o diabo mora nos detalhes, apareceram dois bastante convincentes; isso sem falar no rabo, nos chifres e no penteado by Kamura, modelo de Fiat Elba que roda de avião com o tanque abastecido por laquê premium.

Afinal, sua casa e sua vida aqui em cima combinam com o conteúdo das refinarias. E, talvez pelo perfume do tradicional enxofre oriundo das profundezas dos campos, o capeta tenha optado pelo fogo de uma texana cansada de guerra, que seria recauchutada por profissionais escolhidos a dedo para voltar ao velho negócio.

Apelidada de Ruivinha pelos técnicos que analisaram a dupla traição à viúva, o motivo da instigante alcunha residia na atraente ferrugem que lhe cobria as partes. O colorido do conjunto fazia Pasadena, fogosa por natureza, e desde sempre à venda, lembrar um corpo sardento, característica de quem possui cabelos vermelhos. Se a fama de que não valia grandes coisas já tinha corrido o mundo, a Ruivinha soube deixar tonta quem, a princípio, fez vista grossa à dispendiosa relação.

Segundo o diretor internacional, a Diretoria Executiva bateu o martelo sobre o projeto em uma quinta-feira, exatamente na véspera da reunião do Conselho de Administração que sustentaria a compra sem restrições, o que evidenciaria que a operação já teria sido aprovada nessa instância de antemão. Ante a mão de 4 dedos manchada de óleo e desprovida do mindinho, a mesma que impusera o dileto Paulinho ao colegiado que decidiu a parada, então presidido pela gerentona, ficou clara a responsabilidade do poste sem luz. Surpreendida como alcoviteira da condenável transação, mas receosa das consequências de ser atingida pela Lava-jato, mandou recado aos diretores flagrados com as calças nas mãos que “cuidaria dos meninos”.

Para completar o quadro, é bastante elucidativo o diálogo narrado por um colega de delação de Cerveró, Pedro Correa, quando da imposição do nome de Paulo Roberto ao do então presidente da empresa, José Eduardo Dutra. Lula rechaçou a alegação de que não era tradição do Conselho trocar um diretor da Petrobras sem mais nem menos, com o irrefutável contra-argumento de que, seguindo-se a tradição, nem Dutra seria presidente da estatal, e muito menos ele seria presidente da república.