Exploração e Mágoas Profundas

Foi de cortar o coração o depoimento de Cerveró ao juiz que trabalha com o ministro Teori. Em tom de desabafo, visivelmente emocionado, o amigo abandonado lamentou ter sido sacaneado por uma estranha Dilma. Nem parecia o cultuado Coração Valente, defensora perpétua do MinC e baluarte da cultura da mandioca, mas um frio órgão cardíaco de pedra.

Para o pobre diabo atirado no fogo, a falsidade era, até então, uma faceta desconhecida daquela executiva brilhante que, ungida por Lula, fora a primeira mulher a ocupar o posto de Presidente do Conselho de Administração da empresa líder mundial em Exploração e Produção em Águas Profundas. Foi nessa função que a ministra mineira radicada no Rio Grande passou a exercer o fascínio encerrado em seus poderes absolutos sobre aquele que, mais tarde, viria a padecer como o ingênuo mártir de Pasadena.

Alçada à presidência da república, a princípio a camaradagem entre a chefa do Poder Executivo e o humilde dirigente de estatal a ela subordinado seguiu seu curso sem atropelos, o que apenas acentuaria, em um fatídico futuro próximo, a profunda mágoa do diretor internacional naif.

Entretanto, o tolinho não tardaria a ser jogado no borralho da diretoria financeira de uma reles subsidiária. Rebaixado do contato com bilhões de dólares para a modesta casa das centenas de milhões de reais, o globe trotter, pelas cifras e moedas envolvidas, viu-se comparado a um caixa de BR Mania de luxo. Nesse posto, em vez de desfrutar da proximidade do poder central, era obrigado a lidar com um ex-presidente manchado pela pecha do impeachment. Porém, ainda assim, seguiu fiel à comandanta.

Estoico, Cerveró prosseguiu de cabeça erguida e olhos nos horizontes, até que, às vésperas de se lançar ao cobiçado segundo mandato, a poderosa presidenta, que já externara à imprensa que faria o diabo para vencer as eleições, atribuiu ao fiel pecador a culpa por todos os males oriundos da criminosa compra de Pasadena.

Acusado de sonegação de informações cruciais para uma boa e justa tomada de decisão por parte da então presidente do CA, que deve responder estatutariamente pela aquisição, o estarrecido dirigente viu-se jogado ao fogo das caldeiras da Ruivinha, que tanto prazer proporcionara a todos, inclusive a certos voyeurs que compunham o cordato colegiado.

Responsabilizado publicamente pelo pecado de esconder dois anexos fundamentais ao julgamento da malfadada compra, por meio de bombástica entrevista da presidente-candidata ao Estadão, Cerveró foi escolhido pra Cristo da dupla operação, enquanto sua amiga, ou melhor, sua suposta amiga, abraçava o confortável papel de vítima, de mulher enganada. Descartado como um velho trapo, tratado como leproso pelos antigos companheiros de negociatas, uma leve chama de esperança surgiu quando o mentor Delcídio lhe disse que ela prometera cuidar de seus meninos.

O ingênuo Cerveró considerava-se um deles após 15 anos de trabalho em equipe. Contudo, foi tratado como um garoto de programa de investimentos de luxo, pois, na primeira ameaça de escândalo, a amizade revelou-se uma amarga quimera.

Desprezado e desiludido, o crédulo e cândido amigo descobriu-se imerso em mágoas profundas. Depois de sofrer com a gratuita sacanagem, o traído compreendeu que o propalado coração valente é uma valentona sem coração.

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