Algo no ar, além de aviões de carreira

Se não há um acordo generalizado sobre o que fazer na política ou da política, conseguimos dois surpreendentes consensos em dois dias seguidos. O primeiro reside na impropriedade do pedido de prisão de quatro próceres peemedebistas com enorme influência no Planalto e nas duas Casas do Congresso.

A estapafúrdia solicitação do PGR, isso se a iniciativa foi baseada nas machadadas vazadas até ontem, todas de domínio público, que não configuravam a clássica obstrução de justiça que encontramos, por exemplo, na gravação de Mercadante, ou na que reuniu Dilma e Lula, mereceu reprovação de todo leque ideológico, da extrema direita à esquerda, por convicção, conveniência ou pavor.

Se a iniciativa do chefe do Ministério Público incluía o trivial pedido de encarceramento do presidente afastado da Câmara, coisa para preocupar apenas seus apadrinhados e facções atuantes em Bangu, atingia também o outro, não menos influente, não menos perigoso, mas ainda o incólume titular da casa revisora, onde se trava a batalha do impeachment. Bastante próximo de todos, o ensaboado Renan, cujo silêncio retumbante segue ecoando pelas paredes da Esplanada, estava na lista. As ondas de choque do mutismo derrubaram a Babel partidária em nome da construção de uma língua comum, a da autopreservação da espécie, que não consegue viver na fria latitude de Curitiba.

Se todos os instalados na Praça dos Três Poderes se uniram contra a esdrúxula medida que combinaria, nesse momento de transição, tornozeleiras ao fardão, por que a decisão foi tomada? No meu entender, recorrendo à obra do bigodudo imortal, com o intuito de provocar os Marimbondos de Fogo, para reverter o Norte das Águas e, assim, tirar força do legítimo Dono do Mar da Lava-jato, Moro. Muita teoria da conspiração? Pode ser, admito.

Já o outro consenso, constatei ainda agora, pelas inúmeras mensagens dos meus amigos de coração valente. Todos ficaram entusiasmados com a recepção de Dilma nos voos comerciais, cercada de carinho por todos os lados, atenciosa com a garotada e incansável nos selfies. Dizem até que conseguiu comer alguma coisa além dos amendoins e das barrinhas de cereais, o que não invalidará a bela campanha da atriz que quer levar comida aos famélicos do Alvorada.

Ou seja, na contramão daqueles que se insurgiram contra a medida que lhe restringiu o avião oficial aos trechos de ida e volta entre Brasília e Porto Alegre, a presidenta afastada deu a volta por cima. Está nas nuvens, pois ficou muito melhor no seio do seu povo não golpista, já tendo, inclusive, recuperado boa parte de sua popularidade. Em suma, assistimos a uma experiência maravilhosa, que fará economizar o sofrido dinheiro oriundo de nossos impostos e contribuirá para o ajuste fiscal.

Diante de tais convergências entre governo e oposição, não há cunha que possa impedir o movimento em direção à concórdia. E ouso dizer que a primeira demonstração de que tudo está voltando às boas entre os componentes da chapa que recebeu 54 milhões de votos foi a prisão, hoje, do japonês que simbolizava as prisões determinadas por Moro. Há algo no ar. O dólar caiu ontem e hoje, com toda turbulência no ar.

Quem sabe veremos florescer, em breve, uma iniciativa suprapartidária voltada para os direitos humanos, contra os delatores torturados pelo cárcere. Nesse caso, para nome da campanha, sugeriria “Japa nunca mais”.

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