Belíndia ou Haitimanha

Ontem, na Copa América Centenário, o Brasil sapecou 7 a 1 no Haiti, pertinho da casa deles, na Flórida. Nada demais para a história esportiva dos países, pois em amistoso beneficente realizado em 2004, em Port-au-Prince, a seleção canarinho havia vencido os haitianos por 6 a 0, mesmo saldo de gols.

Noves fora o desvio padrão das economias e do futebol jogado no Caribe, digno das melhores tradições do Triângulo das Bermudas, o destino preparou uma perfeita artimanha para nós, ao permitir o belo e derradeiro gol no último minuto.

Antes, muito antes desse registro no cronômetro, a ironia passara por um rebote na nossa pequena área, animando a grande torcida haitiana, mesmo já com cinco contra. Assim, nem zero e nem dois de lá; nem seis e nem oito de cá, ficamos de quatro para sofrer as consequências da flagrante regra de três, a base das razões e proporções do presente artigo.

“A Alemanha está para o Brasil, assim como o Brasil está para o Haiti”. Este seria o corolário das duas goleadas acachapantes, resumidas no verso da música Haiti, de Caetano: o Haiti é aqui, em clara paráfrase a outro, do mesmo autor, contido em Menino do Rio: o Havaí seja aqui.

Com certeza, o encadeamento derivado dos placares idênticos seria a proporcionalidade, não houvesse um detalhe muito significativo para aqueles que acompanham minimamente o esporte: a zebra numérica, errática, com ares de mula sem cabeça que assombrou o Mineirão. Na ocasião em que uma moderna carreta Mercedes Benz atropelou um caminhão que rodava a álcool, a única peça genuína do nosso estranho veículo era a frase de para-choque traseiro: não vai ter copa.

E efetivamente não teve, a não ser para os alemães, argentinos, estrangeiros abastados, bandidos da FIFA e CBF, nossos empreiteiros e, principalmente, para os políticos. Estes se financiaram com as obras faraônicas, superfaturadas e desnecessárias, farsa que declararam ao TSE, tribunal destinado à lavagem de dinheiro das campanhas de governadores, senadores, deputados e, sobretudo, da chapa formada pela honrada presidenta afastada e seu afortunado vice, ora em ação.

O ardente desejo de um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU levou Lula a optar pela participação do Brasil na missão de paz no Haiti, o que nos aproximou do país ao menos pela tevê. E ainda mais após a tragédia, por ter sido devastado pelo mais terrível terremoto da história recente, abalo que assolou o país já paupérrimo, transformando-o em uma catástrofe diária e crescente, e aprofundando ainda mais a miséria local.

Por outro lado da realidade, Belíndia era um país híbrido, criado pela imaginação do economista Edmar Bacha nos anos 80, tempos de inflação altíssima ou hiperinflação, recessão e consequente aumento acentuado do desequilíbrio da renda. O montante arrecadado era gerido pelos pouquíssimos ricos que mandavam direta ou indiretamente, depois de gerado pela classe média de padrão belga, que pagava impostos escorchantes. O esforço fiscal era distribuído em serviços públicos de péssima qualidade aos milhões e milhões de miseráveis, quadro cujo parâmetro de comparação era a Índia. Como lá, também os “belindianos” nada recebiam em benefícios sociais derivados dessa teórica transferência de renda. Cumpre observar que a Índia de então era um pais que ainda não experimentara o avanço tecnológico e o crescimento acelerado dos últimos anos, onde a esmagadora maioria da população vivia muito abaixo da linha de pobreza.

Se há em curso um terremoto na política brasileira, Richter deve ser avisado de que houve outro anterior de mesma escala na economia. E todo socorro paliativo foi feito para disfarçar os escombros dos desabamentos e saques.

A Alemanha é bem mais desenvolvida que a Bélgica, maior país da comunidade europeia, enquanto a Índia supera o Haiti em tudo, talvez não no futebol, pois adoram críquete, praga britânica que floresceu por lá. Já o Brasil, um país que também parece fictício, vê seu produto interno despencar. Enquanto isso, aliados de ontem culpam um ao outro pela desgraça que atinge nossa porção Haiti. Afinal, a regra é que o produto dos meios é igual ao produto dos extremos. E ambos os lados compõem a nata da nossa porção Alemanha, que ganha de 7 a 1 da gente todo dia.

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