O dia em que Caralho virou interjeição

Nunca revelei, confesso-o agora: sou judeu da senzala, parido nas minas gerais, entre São João do Rei, Ouro Preto e Diamantina.

Ali a vida corria quieta, sem muito espanto. Mas, quando aparecia mula sem cabeça, alma doutro mundo ou assombração, era costume exclamar: “Nossa Senhora!”.

Cada um tinha sua devoção: “Nossa Senhora da Imaculada Conceição!”, “Valha-me Nossa Senhora da Mãe dos Homens”, das Dores, das Graças, da Escada, da Ajuda, da Boa Hora, da Boa Viagem, da Boa Morte, a que fosse da predileção...

Os credos variavam um pouco e, assim, quem não era da igreja, exclamava simplesmente: “Arre, égua!”.

Pedir a intercessão de Nossa Senhora era moeda de feira. Tanto que a invocação de Nossa Senhora da Luz, das Candeias, da Apresentação e da Purificação acabou abreviada para Nossa Senhora!

Depois, passou a Nossa!

Em seguida, e essa é a beleza da língua, foi reduzida (em Minas, pelo menos) a Nó!

Uma interjeição que, em vez de proteção, pode trazer a problemas já que, sem invocar a Nossa Senhora Desatadora dos Nós, nós não sabemos bem como desatar os nós que nós mesmos vamos atando em nossas vidas.

Aí, em Minas e arredores, Nó! passou a ser simplesmente “Nu!”

Nu agora está o caralho. Na boca de todos, adolescentes, balzacas, velhos, crianças, para tudo vale “caralho”.

Medo, dor?: “Caralho!”

Alegria, animação?: “Caralho!!!”

Surpresa, espanto?: “Caraaaaalho!”

Não demora e o santo caralho vai acabar incensado no altar por excesso de emprego e falta de uso.

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