De quem é a culpa

A falência do Estado. Ora, é ilusão: o Estado tudo pode. Até se romper, corromper e, numa autofagia soberana, se consumir e se destruir. E ainda continuará sendo o Estado.

A crise das instituições. De todas as instituições. Ora, é ilusão: as instituições estão todas funcionando, asseguram.

Funcionando mal. Ouvem-se os gemidos histriônicos, vagidos cômicos, sente-se o mau cheiro dos peidos vagotônicos que se espalha pelas ruas. E as ruas respondem: “não fui eu”. Antes era mais simples: para cada erro, uma confissão; para cada engano, um perdão. Hoje, não: toda resposta é não, é tudo não, não, não.

Negativas que escondem confissões, porque o tempo, ah, o tempo, corre a favor de quem conta com o esquecimento e, afinal, amanhã teremos um crime ainda maior que fará menor o crime antes maior.

Ninguém fica corado, envergonhado. Ora, sabemos que a criação é imperfeita, o homem é limitado: essa é a tragédia do humano. Já os problemas, ah, os problemas são desafios enormes e será preciso um salvador para tirar-nos da miséria e da opressão e livrar-nos da injustiça dos poderosos.

Salve-nos o temerário: “sobrar-nos-á” a libertação possível pela oração que nos vem do altar da velha deusa do lar, a televisão, pela superação de todos os males terrenos e pela utopia de um mundo melhor, depois da vírgula. Oremos: a encruzilhada dessa moderna Idade Média levará a novo Renascimento.

De quem é a culpa? Minha não é; por seguro, também não será sua. Não é de ninguém senão do outro que é o impostor, o aproveitador, o sonegador, o mentiroso e o ladrão.

Cada um de nós anda, por certo, sempre na linha. Mas cuidando sempre de que, andando na linha, o trem não nos pegue. Não nos pegue com a boca na botija, com o pé na jaca, com a mão na cumbuca.

Nos perguntamos porque há tantos ladrões impunes, tantos políticos impunes, tantos maus administradores impunes. A resposta talvez esteja no judiciário corrompido, no legislativo corrupto e no Executivo corruptor. Um cria dificuldades para vender facilidades; outro cria obras para vender mensalidades; outro atrasa julgamentos para vender iniquidades ou cria sentenças para vender falsidades.

“Que podem as leis se o ouro é senhor absoluto?

E se a pobreza jamais consegue triunfar?

E até mesmo aqueles que ostentam o magro alforje dos cínicos

Muitas vezes por belas moedas negociam a verdade.

É, pois, um negócio o austero e civil tribunal,

E o juiz não faz senão assinar o contrato.”

(Petrônio, Satyricon, Primeiras aventuras e peregrinações, 60 d. C.)

A solução é beber nixi pãe, ayahuasca ou daime.

A revelação vem suave: a culpa é da favela, do futebol, do brasileiro cordial e do carnaval.

A gente nunca conhecerá o yuxibu, o segredo do mundo.

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