Pode entrar que a casa é sua

Bem-vindo, mas limpe os pés. A expressão é comum a múltiplos modelos de capachos espalhados pelo país, que servem a variadas soleiras, das mais reservadas às francamente hospitaleiras.

Nos diversos estádios onde o Flamengo tem jogado por força do olímpico fechamento do Maracanã, sabidamente nosso abençoado lar, absurdo formado pela cega reverência aos 5 aros entrelaçados, a mensagem é semelhante, mas não igual.

Salto alto expressamente proibido pelos donos da casa, a fria recepção aos tradicionais tênis, sandálias, botas e sapatos tem sido substituída pelas calorosas manifestações de boas vindas às chuteiras que dão base e vida ao manto sagrado. E nada de chinelinho!

Avessos ao conteúdo de fundo desse verdadeiro outdoor ao rés do chão, quanto mais sangue, suor e lama entre as travas, calções e camisas dos hóspedes, melhor. Luta dos pés à cabeça.

Nossos anfitriões não pedem desculpas pela bagunça, como é habitual em muitas casas. Em saudável confusão, em outro diapasão, promovem muito barulho para ajudar quem manda no campo e atrapalhar os visitantes rivais.    

O jogo entre Flamengo e Internacional, realizado em Cariacica, na Grande Vitória, mostrou o que já havia ocorrido em Natal, Cuiabá, Brasília, Manaus, Juiz de Fora e até em São Paulo, onde lotamos o Pacaembu. Mesmo após uma injusta derrota, os torcedores do Mais Querido lograram ocupar as dependências mais heterodoxas do estádio. Lá, cerca de 20 mil vozes conduziram a equipe à Grande Vitória no Espírito Santo, amém.

A recente façanha capixaba foi mais um exemplo de entrega das chaves de uma grande cidade ao clube carioca. Revelou, nas arquibancadas e no improvisado barranco encharcado, a existência de uma nação rubro-negra espalhada do Oiapoque ao Tietê.

Não obstante as dificuldades geográficas, quero crer que saberemos ultrapassar o Rio Iguaçu para chegar ao Arroio Chuí. Afinal, já arrastamos milhões de colorados para nossas hostes, na campanha de 1982. E de gremistas nas conquistas de 1987 e 2009, o último contra as próprias cores, tisnadas de vermelho pelo destino. E, como o hino já diz que “uma vez Flamengo, sempre Flamengo”, não tardará para o Flamengo ser acolhido pela família gaúcha, o que fará estender a Nação a todo País.

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