Entre a realidade e a imaginação

O jornalista e o escritor: a palavra os une e é só.

Antes da palavra, um é sonho e o outro, fato. Um é criativo, o outro descritivo. Um é intuitivo, o outro investigativo. Um imaginativo, o outro factual. Um subjetivo, outro objetivo.

Para um a linguagem é a liberdade, para o outro, a prisão, ainda que por uma causa libertária.

Um se apega à verdade do real, o outro à imaginação do irreal, quando a literatura é a fuga para irrealidades imaginadas; o escritor pode valer-se até de banalidades e da mentira como recurso, o jornalista não.

O jornalista deve ser cirúrgico, nada cosmético. Para o escritor, o estilo é pessoal, o que melhor lhe convém à criação; para o jornalista, o estilo é o da publicação, é a linguagem do veículo para o qual escreva e para o público que deseja alcançar.

O jornalista está preso à engrenagem do marketing do conteúdo, mesmo sendo panfletário ainda assim será marqueteiro da informação que pretende transmitir, em qualquer linguagem e em qualquer plataforma. É o “idiota da objetividade”, na definição de Nelson Rodrigues.

O escritor, ainda que preso ao mercado do livro, sofre a incômoda liberdade da escolha de temas e histórias, tem o fantasma tormentoso da crítica à espreita, mas, ainda assim, estará livre para publicar ou não a sua obra e dar a ela a linguagem e o estilo que lhe aprouver. Mesmo o escritor escravo do sucesso, pode muito bem jogar muita “coisa” fora.

O jornalista, escravo do fato objetivo, não pode omiti-lo sob pena de trair a profissão, embora possa ver sua melhor história lançada à lata de lixo por desinteresse do editor ou pelo interesse do dono do jornal.

Um escritor não pode usar fatos e eventos para enriquecer ou dar ritmo à sua narrativa?

Pode, está livre para fazê-lo, como inúmeros biógrafos, historiadores e escritores como Capote, Mailer e Saramago. O “new journalism” de Tom Wolfe e Gay Talese nos revelou que bons jornalistas podem ser bons escritores.

Um jornalista pode escrever livros com base nas investigações profissionais e estará fazendo jornalismo literário, como Truman Capote e Norman Mailer. A linguagem é jornalística em técnica literária para a experiência do livro.

Há muitos dublês de jornalistas-escritores e jornalistas-historiadores, que atuam nos dois ringues com a mesma desenvoltura. Aliás, no começo, as duas “profissões” se confundiam e havia quem se dispusesse a separá-las.

“Eu? Não trabalho em jornais. Considero a imprensa uma indústria intelectual. Entra a gente para o jornalismo com um bando de idéias originais e retalha-as para o varejo do dia-a- dia (...) O redator não quer saber se temos ideais ou não: quer espremer (...) O prelo é a moenda e lá se vai o cérebro...” Coelho Neto, A Conquista, cit. por Marisa Lajolo em Jornalistas e Escritores, A Cordialidade da Diferença.

Muito comumente, o jornalismo é a porta de entrada da literatura: o maior brasileiro, Machado de Assis, confessa ter começado sua carreira “pela porta de serviço da literatura: o jornalismo”. Graciliano Ramos foi copidesque do Correio da Manhã. Cronista do JB, Carlos Drummond de Andrade viu no jornalismo “escola de formação e aperfeiçoamento para o escritor”. Depois da entrada no mundo da palavra, os caminhos da expressão se abrem e cada um segue a sua linguagem.

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