Gesta Brasiliana


Não devemos culpar Brasília pelos malfeitos inglórios e proezas ratazanescas; afinal, os brasilienses têm tanto a ver com tais façanhas quanto nós outros, que alimentamos a capital federal com a pior sorte de detritos.

Pode-se, no máximo, registrar que no tempo do Rio, capital federal, o mau cheiro era menor porque adocicado pelo vento do mar; a política estava ao sabor dos altos e baixos das marés, mas longe da rasa planície do planalto central. E tudo que se passava no Rio repercutia como tamborim de carnaval numa imprensa que se equilibrava entre o heroísmo e o venal.

O Rio perdeu três vezes com a mudança da capital: perdeu o governo e os poderes centrais, Judiciário e Legislativo, perdeu as representações estrangeiras e perdeu os organismos federais, entre eles as Forças Armadas. E ganhou, neste 3 a 0, como se fosse compensação vantajosa, o peso da fusão com o Estado do Rio que, afinal, foi ficando leve com a exploração do petróleo e, agora, pesa como gigantesco defunto, pela incompetência no uso dos royalties e pela roubalheira das máfias locais.

O Rio virou terra sem lei. Bandidos tomam conta de bandidos; milicianos afrontam policiais e seguranças espalham insegurança. A toda hora, uma vítima, a cada hora, um defunto. À frente, políticos insensatos, sem alma e sem compromisso a não ser com o enriquecimento a qualquer custo.

O roubo federal, estadual e municipal, em todos os níveis e em todas instituições, de sul a norte, de leste a oeste do país, e não pode ser debitado a Brasília. Mas o mau exemplo, sim: este veio de cima e pode ser creditado a Brasília.

A Brasília tudo chega filtrado pelos óculos do poder; as discussões mais sérias se dão entre meias garrafas: antes que cheguem ao fim já se abrem outras à nossa custa. Com a bravata coragem dos bêbados, anunciam reformas que não são reformas, o que, afinal, pouco importa, já que não serão votadas e, mesmo o sendo, ou serão vetadas ou não serão implementadas.

Brasília parece não ter ouvidos. Agora, saem todos para gozar de merecidas férias. Crise? Que crise? É gozação. Os homens, encastelados no teatro do poder, seguem corajosamente o protocolo da covardia: fingem que nada está acontecendo. No palco, maus políticos, péssimos atores, somente dão atenção a safarem-se das safadezas cometidas, escondendo-se nas coxias e entupindo as portas de saída.

Não se pode levar a sério políticos de tão baixa qualidade. Na Brasília da fantasia desses falsos donos do poder e do país, o ressentimento das periferias é lenda, a insurreição dos pobres é fábula, o afundamento da classe média é passageiro – como, aliás, eram passageiros os ocupantes do Titanic. Basta organizar o “centrão” e botar a orquestra para tocar em novo baile da Ilha Fiscal.

Ninguém está prestando atenção. Chega de protestos inúteis: a voz da rua não chega ao Planalto central. A ideia da capital no Planalto central, em vez de unir o Brasil na sua caminhada para o futuro, distanciou os governantes de todos os brasileiros. Brasília é igualmente distante de todos os sonhos, de todos os desejos. Talvez nem mesmo o brasiliense, envergonhado, se identifique ainda com o sonho de JK.

Brasília é a esquina final do faroeste macunaímico caboclo. É lá, naquela imensa mansidão longínqua, distante de todos os brasileiros, que se verá ocorrer o duelo final, se o brasileiro souber transformar o voto em tiro fatal contra a corrupção e o descaso.