Pesquisando em águas profundas

05/07/2016

A cada notícia revelando as entranhas criminosas na Petrobras, fico literalmente dividido entre duas categorias de pessoas: os empregados e a diretoria da empresa.

O primeiro pensamento decorre de minhas relações de trabalho com a empresa por mais de duas décadas, até que, em 2010, remando contra a maré e para estarrecimento geral, desisti do patrocínio que ela dava ao Leia Brasil.

Sempre achei - e disse a quem quis ouvir - que o enorme investimento feito por eles no combate ao analfabetismo funcional por intermédio do Leia, embora fosse aprovado pela Diretoria, era fruto de um “dever de consciência” de seus empregados, uma espécie de compromisso com a mudança dos que lá estavam, para com os que não tiveram as mesmas oportunidades.

Eram aquelas pessoas que ostentavam seus crachás verdes no peito (conquistados em disputados concursos), e que exerciam todos os tipos de cargo, desde os subalternos, até às Superintendências, que compunham a verdadeira força gestora da estatal.

Eram eles que lutavam, muito antes do modismo deste milênio, pelos programas de Responsabilidade Social.

Tive todas as chances e oportunidades para conquistar e agregar apoios mais “robustos” para o Leia e a Caravana da Cultura. A começar pelo Comunidade Solidária, comandado pela Professora Ruth Cardoso, com quem estabelecemos diversas parcerias, sem que isso jamais tenha trazido qualquer vantagem para qualquer um dos meus Programas.

Mas sempre achei que a grande força da empresa estava naquele espírito de corpo, nos “peões”, que de peões nada tinham, e que enchiam o peito de orgulho para falar dos vínculos da “sua” empresa com o futuro deste País, tão emblematicamente associado ao CENPES, o Centro de Pesquisas agora nas páginas policiais.

Durante todo o período em que patrocinaram o Leia Brasil e a Caravana, jamais conheci alguém que me pedisse dinheiro. Nem lá, diga-se a bem da verdade, nem em mais de mil cidades por onde realizamos esses Programas.

Talvez eu tenha sido protegido pelo ideário que revestia aqueles trabalhos - criar condições para mudar o País pela educação. Eu prefiro acreditar na índole das pessoas.

O segundo pensamento que me ocorre, conhecendo a estrutura de poder da Petrobras, é um incomensurável assombro com o fato de que essa roubalheira ocorreu por tanto tempo, sem que tivesse sido denunciada, desnudada e interrompida por seus empregados.

De dentro para fora, e não à base do saca-rolha, como a Operação Lava-Jato está fazendo.

Até as colunas do estacionamento do Edise sempre souberam tudo o que ocorre ali dentro. Em nenhuma empresa do mundo as expressões “rádio-corredor” e “rádio-peão” teria tanta adequação quanto lá.

No ano 2000 a empresa começou a implantar diversas mudanças administrativas, trocando cadeias de comando, estabelecendo as PL’s (participações nos lucros), desenhando planos decenais, ganhando competitividade com o mercado através de salários mais robustos.

Foi nessa época, inclusive, que um certo músico bahiano, acompanhado por um seu amigo e assessor, começou a impor sua influência nas áreas de comunicação e patrocínios da empresa, vindo, mais tarde, a se tornar Ministro e principal gestor dessas verbas da petroleira através da Lei Rouanet, outra candidata às passarelas do Judiciário.

Coincidiu, também, com os recordes mundiais e os prêmios de tecnologia O aumento da produção e do preço do petróleo, trazendo um período de opulência e ufanismo para a Petrobras, que logo depois seria comandada pelo primeiro governo efetivamente popular de nossa história.

Teriam os valores ideológicos subvertido o espírito de corpo daquelas pessoas?

Nos anos iniciais da gestão petista, me lembro dos comentários que faziam sobre o inchaço nas atividades meio da empresa, e do excesso de contratados temporários, que chegavam à casa de centenas de milhares.

Teria isso minado e destruído o espírito de corpo?

Ou os benefícios da roubalheira se espalharam pelos corredores, inundando as refinarias, através de salários e PL’s?

Teriam aqueles antigos empregados, oriundos da precariedade dos anos sessenta e setenta, sido postos de lado pela aposentadoria, ou simplesmente sucumbido à prosperidade?

O que houve com a poderosa Aepet - a Associação dos Engenheiros da Petrobras, que não emitiu um único comunicado sobre toda essa podridão?

E, encerrando esse diálogo de idéias: o que dizem, hoje, os empregados da Petrobras?

Afinal, como seria possível tanta podridão sem que Sérgio Gabrielli, Dilma Roussef e toda a cúpula da estatal, até o Planalto, não estivesse envolvida?

Como a Graça Foster, símbolo dilmista de retidão e honestidade, não sabia de nada?

O que o Bendine, aquele amigo da socialite, esteve fazendo lá durante todo esse tempo?

São muitos bilhões de dólares trocando de mãos para que ninguém visse, soubesse ou comentasse.

O que houve com o Ethos da corporação? 

Daqueles que apostaram suas vidas numa carreira na maior empresa do hemisfério, e agora vão ter que pagar as contas da Petrus? Vão fazer companhia ao pessoal do Aerus?

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