A vaidade dos mortos

Há uma arte de preparação para a morte que consiste em buscar a virtude e a sabedoria como se fossem de alguma serventia no além; aquém, outra vaidade agora é preparar também o corpo e a face para o doce passeio nos Campos Elísios ao encontro dos homens sem umbigo.

Uma mulher está vendendo o serviço lucrativo de necromaquiadora, uma especialização da tanatopraxia, que consiste em embelezar o morto para o encontro com a morte. Afinal, ninguém quer morrer feio e a manipulação correta de uns cremes e realces, com blush, rímel e sombra, garantirão ao defunto uma beleza que talvez jamais vivera em vida, apropriada assim aos elogios fúnebres e encômios que não conseguem ver defeitos nos mortos.

A tal ponto chegou o respeito dos muito vivos aos muitos mortos. A tanatopraxista necromaquiadora garante o serviço: o falecido não reclama, sequer pisca os olhos a não ser quando manifesta uma convulsão tardia. Os carrascos das civilizações antigas já sabiam, por prudência, que se deve cortar a língua e cobrir de capuz o condenado. É terrível o que pode ser confessado na hora da morte. Mesmo decepada, a cabeça rola os olhos em nervosas piscadelas e, mantida a língua, sempre se poderá, nessa queda vertiginosa, revelar alguma verdade incômoda.

Os egípcios, que acreditavam na vida após a morte, mumificavam seus entes queridos para o reencontro do corpo. O hinduísmo também tem a reencarnação continuada como crença: a alma, de acordo com seu nível de consciência, transmigra na Roda de Samsara até a iluminação final, a moshka. Para outras espiritualidades, o renascer se dará noutras formas e talvez noutra dimensão. O livro tibetano da morte aponta 49 etapas até atingir-se a terra pura. Dizia Cícero que filosofar não era outra coisa senão preparar-se para a morte.

Os muçulmanos esperam encontrar o paraíso de córregos de leite e mel e belezas jamais vistas. É notável o cuidado dos vivos com a eternidade nas tradições dos povos que vêem a morte como uma passagem. “A vida que vivemos é a vida, ou é esta aquilo a que chamamos morte”, indagou Eurípedes. ou Algumas vertentes do budismo vêem nela o renascimento, ao contrário de Manuel Bandeira, poeta, que viu na morte bendita o fim de todos os milagres.

O que revela agora a esperteza dos vivos nessa vaidosa preparação do morto é que ele, a sete palmos do fundo, quer manter todos os sinais do poder, elogiado, arrumadinho, aplaudido. A morte está em nós, mas nós não estamos na morte.

Um amigo preveniu-me como Epicuro: não vá ao meu enterro porque não estarei lá! Epicuro já havia advertido: “não conhecemos a morte porque, quando ela chega, já não estamos presentes”. Quando a morte chegar, a alma já não estará lá.

Os muito vivos já reinventaram a morte com vaidade. Falta agora reinventar a vida com alguma humildade.

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