A velha "roda dos enjeitados"

Antigamente, muito antigamente mesmo, mais precisamente no ano de 1188, em Marselha, na França, uma prática medieval era muito comum em igrejas e conventos. Instalados em portas dessas instituições religiosas cilindros de madeira giratórios eram usados para que mães lá deixassem seus filhos, na certeza de que eles seriam bem criados, e nunca seriam identificados. Era a chamada “roda dos enjeitados”.

Essas mães, após depositarem seus filhos nos cilindros, tocavam uma campainha e imediatamente freiras e padres eram avisados de que estava chegando mais uma criança abandonada.

Essa prática só se popularizou mesmo, depois que o Papa Inocêncio III, horrorizado com o número de bebês encontrados mortos no Rio Tibre, determinou que o sistema fosse adotado nos chamados territórios da Igreja Católica.

Um dado interessante é que no final do Século XIX, o Hospital Santo Spírito, em Roma, que foi um dos primeiros a utilizar a “roda dos enjeitados”, recebeu, em um único ano, cerca de 3.000 crianças abandonadas.

Dizem, inclusive, que sobrenomes comuns de famílias italianas teriam origem nos cilindros giratórios de madeira. Dois deles são Espósito, que vem de “exposto”, e Innocenti, numa alusão clara à inocência infantil. Em Portugal e no Brasil o sistema era conhecido como “roda dos expostos” e chegou a funcionar até meados do Século XX, principalmente nas Santas Casas de Misericórdia de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Agora, o que garantia às mães o anonimato e aos bebês um futuro certo foi reinventado em Hospitais da Alemanha, Áustria, Suíça e Itália.

Na versão moderna da “roda”, no lugar dos cilindros de madeira, a criança é colocada em um berço, através de uma janela, impedindo a identificação de quem a pôs ali, como nos velhos tempos da velha “roda”.

Esse berço, vejam bem meus caros leitores, é aquecido e a velha campainha foi substituída por sensores que alertam médicos e enfermeiros sobre a presença de mais um “enjeitado”. A questão que se põe à discussão de todos nós é se a volta desse sistema, como já foi dito, utilizado novamente na Europa, pode vir a minimizar a questão dos bebês abandonados em nosso país.

Quase que diariamente lemos nos jornais e assistimos nos noticiosos do rádio e da TV, notícias sobre abandonos de pequeninas criaturas indefesas, e o que é pior, em locais nada adequados para tanto, como se não bastasse o abandono materno e paterno.

É um caso pra pensar! Pois, como dizia o grande Albert Sabin “Alguma coisa tem que ser feita pela humanidade sem visar lucro”.

E bem que hospitais e instituições beneficentes de todo o Brasil poderiam adotar o lema do Hospital Casilino, de Roma, onde está escrito em vários idiomas: “Não abandone seu bebê. Deixe-o conosco”.

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