Ainda sobre a morte - a morte e o prazer


A morte nada revela além do avesso da vida como ela é. Numa fria lápide da igreja capitular de Écouis, em Villemaur, alguém esculpiu este epitáfio enigmático: “Aqui jaz o filho, aqui jaz o pai, aqui jaz a mãe, aqui jaz o irmão, aqui jazem a mulher e o marido; há somente dois corpos aqui, 1502”.

A vida como ela é: Berthe, filha do conde de Châtillon, casa-se com o castelão da pequena comuna de Écouis, na alta Normandia: dele teve um filho que foi à Itália lutar por Carlos VII, o vitorioso rei de França que se diz tirado da desgraça por Joana d’Arc. De volta, sem sabê-lo, reencontra a mãe em Bourges, lá onde se ergue a catedral gótica de St. Etienne, e lhe dá uma filha, também sua irmã, com quem irá casar-se dezoito anos mais tarde. Ao fim, descobrem a verdade e morrem ambos de desgosto.

Não adianta fugir, nem se esconder: a morte irá encontrá-lo. Como foi encontrar Ésquilo, vitimado por uma tartaruga que lhe caiu na cabeça desprendida das garras de uma águia azulada.

São relatos de Montaigne. Já houve quem morresse engasgado com uma tão pequena semente de uva. Lépido deu razão ao nome, vitimado em conseqüência de uma topada na porta. A Aufídio bastou dar com a cabeça mole no duro batente de outra porta, a do Conselho, no caso mau conselheiro.

Se as portas podem ser perigosas, o que dirá dos caminhos que levam a outras portas, como as portas do prazer. Morreram com as calças arriadas entre as coxas das mulheres: Átila, na noite de bodas, o pretor Cornélio Galo (Cornélio deveria chamar-se o marido...), Tigelino, por alguma razão que não o nome comandante da guarda de Roma, Ludovico, filho do marquês de Mântua, o pequeno filósofo platônico Spensipo. E, dizem, até mesmo um papa que se intitulava Leão, no tempo em que papas se interessavam por mulheres, não por crianças.

Ora, não há contradição essencial entre a vida e a morte, já que a vida é morte e a morte é vida. A morte extingue os abismos mentais que atormentam a alma, a morte põe fim as desvios do corpo. A morte é plenitude.

Lá onde as coisas ainda não existem, vislumbrou Sêneca, lá está a morte. A mais terrível das coisas terríveis, a morte pode ser bela, o refúgio do tormento e do sofrimento, longe das tribulações e dos problemas. A morte pode ser o deus que liberta, a passagem para a vida definitiva, a glória eterna.

E pode ser também o reencontro com o prazer: in voluptate mors. Dormir fazendo amor, dormir sem acordar jamais; nada mais ver, nada mais sentir, nada mais sonhar, morrer de amor.