Por que ainda temos palácios?

17/07/2016

Sempre me impressionou a tal história de Maria Antonieta com a falta de pães. A primeira vez que a ouvi, de minha mãe, havia um viés de crítica à insensibilidade dos nobres, incapazes de enxergar o sofrimento alheio. Com o passar dos anos, meu entendimento foi sendo burilado, como os seixos no rio, e outros valores foram sendo polidos.

Hoje, o que restou foi o espanto liso e redondo de saber que o poder distancia as pessoas da realidade.

Essas pessoas não só têm o centro do universo no próprio umbigo, como também não consideram a possibilidade de que haja umbigos fora delas mesmas.

Muito mais que o palácio de Buckingham, a Casa Branca, ou qualquer outro ponto do planeta (excessões feitas ao Kremlin e à Cidade Imperial, na China, talvez), os Palácios, no Brasil, são templos de culto a essa religião: eu-estou-bem! Então, lógico, tudo está muito bem!

Talvez, uma maneira de acabar com isso seja dar nome certo aos bois: por que esses prédios de governo se chamam "Palácios"?

A grande maioria são casarios velhos, pouquíssimo funcionais (foram construídos numa época em que não se tinha água encanada, banheiro, esgoto nem luz elétrica no Brasil) e ficam em áreas de aceso estrangulado, nos centro histórico das capitais…

Segundo, querendo ou não, dá aos seus ocupantes uma desnecessária informação de nobreza, coisa de que, há muito já vimos, o serviço público é totalmente desprovido. Ninguém está ali desempenhando uma nobre missão, caracterizada pelo sacrifício. Pelo contrário. Estão prontos a sacrificar quem quer que os ameace na posição.

E aqui chego ao cerne dessa questão: o clima nas ruas, de norte a sul do país, está muito estranho. A quantidade de policiais mortos nesses últimos meses é infinitamente maior do que nos últimos três anos. O recrudescimento da violência, associado à percepção de pobreza da população desempregada e a banalização dos crimes de morte, parecem não incomodar os palacianos.

Passada a eleição do Presidente da Camara, prometidas as cassações de Cunha e Dilma, o que resta é acompanhar as Olimpíadas e resolver como vai ser a eleição dos próximos ocupantes dos palácios municipais… Estamos dando de olé, vamos trancar a bola e fazer cera que o jogo é nosso...

Trabalho na Câmara, só dois dias por semana até outubro. Toma mais feriado, que tem é pouco. Fique em casa trancado, porque agora o negócio é sério...

A crise que se lixe. O importante é eleger os prefeitos e dar a eles governabilidade, com vereadores adestrados e alinhados para dizer amém a tudo que eles quiserem.

Se esse não é um plano de incentivo aos Black Blocks, poderia ser o roteiro de um game: Burn the Palace.

Ganha mais pontos quem fizer isso com o maior número de ocupantes dentro.

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