Mordomias e mordomos


No momento em que, atingida pela crise, a sociedade é obrigada a apertar o cinto, isso quando o acessório já não foi abolido do vestuário por uma questão de economia, as notícias sobre as mordomias nos três poderes causam enorme desconforto. Nada a ver com calças deslizando cintura abaixo ou caindo, cuecas de marca à mostra, grife de baixo misturada aos fundilhos de cima, moda juvenil de extremo mau gosto. Trata-se de metáfora pura no lombo dos patrocinadores compulsórios dessa orgia que jamais acaba.

Chega de sustentar esse estado gigante, esse estado de coisas! Fiscais disso, fiscais daquilo, tribunais de contas viciadas de todas as esferas e tamanhos só aumentam a conta. Quando não é imposto ou taxa é multa, a última delas a excrescência do farol baixo, mais uma forma de o punguista dirigente enfiar a mão em nossas carteiras, de notas e de motoristas. Se quem perdeu o direito de dirigir por ter a câmera que captou o farol supostamente desligado contra o sol, que recorra ao judiciário. Banque advogado e custas do processo.

Não é à toa que a garotada só quer estudar Direito e batalhar concurso público. Não tardará a faltar bem para sustentar o serviço. Para garantir a bocada da nova leva da máquina, mais encargos para o cidadão, que não terá outra solução senão a informalidade, a ser severamente combatida com mais dinheiro nosso.

Creio que a miopia de nossos governantes passou dos limites da imbecilidade. A despeito de as mobilizações de 2013 terem descambado para a dupla ignorância, ao sabor de uma oportunista falsa esquerda, o recado foi dado, e não pelos 20 centavos.

A última pesquisa realizada no país constatou que o principal problema enfrentado pela população é o da corrupção. Pela primeira vez, ultrapassou a campeoníssima saúde, rebaixada à vice-liderança. E foi de barbada, 32% a 17%, batendo, em outra cristalina comparação, a soma de desemprego, segurança e educação.

Mudaram as preocupações? Viramos todos carolas udenistas? É evidente que não. Apenas a Lava-jato cumpriu o papel de expor as vísceras do que é feito da arrecadação pública, das verbas que são geradas em nome da população, mas que são desviadas pelo e para os políticos e seus fiscais particulares, em um círculo vicioso que visa às mordomias, ligadas umbilicalmente ao nefasto foro privilegiado.

A incompreensível presença de Renan à frente do Congresso mostra que o fracasso dos poderes constituídos para a distribuição da renda nacional é retumbante, mas o poli-multi-indiciado alagoano segue como mordomo-chefe, que servirá aumentos a todos os nobres servidores, enquanto os escravos da legislação criminosa seguirão suando na cozinha, sempre apertados, sujeitos às sobras e aos furos do cinto.