O horror e o terror

Nova Iorque, Londres, Paris, Istambul, Dakkar, Madri, Bagdá, Nice. Manhã, tarde, noite.

Na esquina, num bar, numa mesquita, estação de trem ou aeroporto, um atentado.

Explosões, estampidos, gritos, gemidos, lamentos: uma bomba, duas bombas, dez bombas, todas anônimas, matam centenas de anônimos.

Nesse mundo globalizado de províncias, ingleses fecham as portas aos imigrantes, votando pelo isolamento da isla. O terror vai se vingar contra anônimos atropelados como viralatas de rua na Promenade do Terror, a Promenade des Anglais, em Nice.

A multidão surpresa e confusa não esboçará reação. A covardia é completa. O terror tem mil faces e cada face esconde facetas irreconhecíveis. Ninguém conhece o inimigo. Ninguém tem certeza sobre o que o move. A razão, se houver, será revelada num enunciado anunciado por anônimo porta-voz.

O terrorista sem rosto esconde apenas o ódio e o revela pela corajosa covardia. A morte que provoca é a morte indistinta, a morte sem qualquer distinção. O morto também não tem identidade: é a multidão amorfa e displicente contra a qual projeta a sua vingança anônima e cruel.

O morto sem rosto é irreconhecível, que não tem documento e não terá medalhas, talvez um minuto de silêncio, homenagem da hipocrisia a quem já não fala, não grita, nem ouve. Não é mais o terrorismo nacionalista, o terrorismo religioso ou o terrorismo revolucionário, de ação inesperada, covarde e condenável, mas que pode ser compreendido como o último recurso de minorias perseguidas às quais se fecharam todas as alternativas.

O que move agora o terror do horror? A fé, o ódio, a intolerância, uma neurose, um desvio social? E como se dá o êxtase da missão bem sucedida? Pelo encontro inglório da morte gloriosa e o generoso reconhecimento de um deus?

Não há mais clareza sobre as questões políticas ou religiosas que movem essa ou aquela ação. No covarde terrorismo sem causa, a motivação parece mais midiática: disseminar o terror pelo terror. E o resultado midiático é terrível como a ação. O resultado da covardia do terror é o horror.

Em vez de apoio à causa difusa e confusa, amplia o leque de inimigos até entre os que comungam as mesmas orações.

Disseminado o terror, o medo coletivo. Quando será o próximo ataque? Onde o próximo atentado? Aqui? Ali? Quem será eleito inimigo?

Um gemido incompreensível, um lamento surdo, um grito preso na garganta, um minuto de silêncio.

Incompreendido até para quem chora, o choro do terror é um choro sem lágrima.

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