A comoção em câmara lenta


Outra semana, outro ataque terrorista sem sentido. Basta sentar e esperar. E é o que estamos fazendo ao olhar os gestos lentos dos estadistas de raciocínio lento à espera do próximo ataque.

Da London School of Economics and Political Science, a brasileira Dra. Maria Norris (@MariaWNorris) chama atenção, na edição do New Statesman, para dois detalhes que andam depressa nesse emaranhado de lentas compreensões.

A pressa do EI, o famigerado Estado Islâmico, em se apropriar de qualquer traque, explosão, bomba ou acidente de qualquer origem, em qualquer lugar, mesmo sendo o autor, como comumente o será, um louco, neurótico, alucinado.

Em Orlando, um deles se move pela incompreensão do próprio sexo: não quer se aceitar homossexual, não quer sair do armário a não ser para atirar naqueles que orgulhosamente projetam seu ego no espelho da boate gay. O EI logo assume a inspiração e a ação.

Outro, em Nice, move seu caminhão pela incompreensão da mulher que lhe nega compartilhar o sexo e sai para um passeio irado na Promenade des Anglais. Logo, o EI se apodera do feito covarde e dissemina a propaganda do medo. O presidente francês, como resposta rápida, anuncia a escalada bélica na Síria e no Iraque.

Pela pressa do julgamento: temos, então, a rápida percepção de que o EI exerce poderosa influência sobre corações e mentes e que, por conseqüência, os muçulmanos, onde quer que estejam em suas orações, merecem condenação por cumplicidade ou, pelo menos, alguma desconfiança. Vai que...

A brasileira Dra. Maria Norris, filha do Werdine de Itajubá, lembra que também os muçulmanos são vítimas do EI e cita, recentes, o ataque à mesquita do Profeta na Arábia Saudita, o ataque suicida de Bagdá que matou 250 pessoas e o ataque do Iemen, que vitimou 40 recrutas. O ISIS faz vítimas sem conta todos os dias na Siria e – não levem como vantagem – mata todos os dias mais muçulmanos do que não muçulmanos.

No Ocidente, as vítimas somos nós, reféns dos jogos do poder e das estratégias geopolíticas. A repetição dos tristes fatos entorpece o julgamento, a sensação de déjà vu amortece a emoção, o replay dos atos covardes nos deixa imobilizados.