A beleza, o que é?


É a água do córrego? As pedras ao fundo? Os peixes? Os cavalos marinhos?

A onda do mar? O horizonte no mar? A linha da montanha? O pianista ao piano?

As malas de viagem? O caminho das Índias? As índias do caminho? Uma caçada de sangue?

A amizade retomada? O baterista tocando? A cozinheira em suas panelas?

A neta penteando os cabelos? O sorriso? A neta perguntando: quantos anos mamãe tinha quando você ficou velha?

As velhas conversas, os papos sem trela no sobrado do Porto? A bochecha do leitão do Bolhão? O acender da vela?

A noite chegando? A noite passando? A noite amanhecendo?

As mudanças, as transformações.

O canto do galo? O sol refletido na neve, ainda que por um instante breve?

O arrastar das chinelas? O pão quente? O café quente? A manteiga torrada?

O cão tentando entender porque o carinho é tão importante para o almocreve?

O caleidoscópio quebrado em vidrilhos de todas as formas? As cores da matinê em cinemascope?

O irmão da fé e o sinal da cruz? O mármore, a madeira, o ferro.

As curvas quaisquer, de preferência de mulher.

A vergonha, o pudor de tanto amor.

O balé sem dor, a flor de qualquer cor?

O sorriso e, ah, o olhar enigmático e incompreensível. A mão para tocar.

Aquele Chevrolet Impala conversível? 58? O som do motor.

A gasolina, o incenso? Velhos vinhos, velhos retratos, a Mona Lisa.

O biscoito de goma e o pequi de Montes Claros?

Os ovos moles dos monges avaros?

O trem, a estação, os impressionistas, os modernistas, a saudade, o zazap.

A dor da memória é a beleza.