O Rio que me alegra e que em mim dói


Todas as estações do ano marcaram encontro neste agosto festivo no Rio: nenhuma quer perder a celebração dos grandes atletas e seus grandes feitos.

O outono está aí com o céu límpido e os horizontes de traços definidos.

O inverno, dono do momento, recebe a todos com madrugadas deliciosamente frias.

A primavera apressada já mostra suas flores de todas as cores.

O verão, fora de hora, lota as praias babélicas e convida às trilhas de cascatas, florestas e matas.

Como é vaidosa a cidade do Rio de Janeiro. Está iluminada, calorosa, sabe que os olhos do mundo inteiro estão voltados para ela.

Por um tempo, vai esquecer as mazelas e esconder as entranhas da miséria.

Ficarão os tiroteios e suas balas perdidas confundidas com o foguetório que celebra as medalhas vencedoras.

Afinal, o Rio sofreu a síndrome de abandono do poder. Pagou caro a mudança da capital federal. Como as grandes cidades sem identidade e sem governo, formaram-se em seu núcleo aglomerados de desconfianças, guetos de discórdia, esquinas do perigo.

O Rio já não pode se queixar: ganhou recentemente três vezes na loteria. Não houve talvez cidade brasileira que tenha sido mais dotada com a sequência das obras do Pan, da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos.

Que não jogue fora esses prêmios e as medalhas que sobraram da pilhagem e da corrupção.

Descobre-se agora quando a cidade se mostra que o Rio não perdeu a alma da sedução. O Rio, cidade vaidosa, sabe seduzir ainda que a maltratem tanto.

O poeta dirá: “Rio, em ti tudo me dói, como se espelhasse minha alma. Rio, em ti tudo me alegra, como reflexo da cidade amada”.

Também para mim, o Rio que me alegra é o Rio que em mim dói.