Ainda existem sogras

Um amigo da feira pôs à venda a sogra. Além de bananas, quer passar adiante a sogra como antes se fazia nos mercados persas. Corre o risco de ser preso por questões de gênero ou por crime contra o consumidor, vendendo gato por lebre.

Diz-me ele a guisa de convencimento: está nova, apresenta boa pele e tem todos os dentes. E ainda carrega celular também novo, com zazap. Não seria melhor abrir mão da mulher? A sogra iria embora junto...

A mulher já se foi com outro. Ficou a sogra. Em bom estado.

Já não se fazem sogras como antigamente: as de hoje têm a idade da nora, se vestem como as filhas e já vão para o terceiro ou quarto casamento desde que as casas se mantenham separadas. Não querem revelar a terceira idade ao acordar.

Quem faz agora o papel de megera irascível e insuportável é o sogro, que perde todo o tempo no futebol e algum dinheiro no jogo, à espera de que a família o meta num asilo, como paciente impaciente, ou num manicômio, se o doce destino dos parvos levá-lo a se apaixonar pela enfermeira ou pelo enfermeiro.

As noras também se casam mais experientes em armadilhas e artimanhas. Os genros que, no período de noivado, já perceberam a má escolha, persistem no erro pela preguiça de não dar a mais perder os anos já perdidos e os caros preparativos das bodas. Afinal, é hora de formar uma família.

O pessimista August Strindberg via a família como um conjunto de pessoas que se detestam: “Sede felizes, o inferno é aqui”, advertia o escritor sueco. Outro amigo citava Rubem Braga (embora não garanta que a citação fosse mesmo do rabugento Rubem), segundo o qual parentes são como peixes; estragam depois do terceiro dia de tolerada e intolerante convivência.

Ao contrário da dissolução das famílias, em que alianças são partidas, vai crescente o tricotar entre as outrora competitivas noras e sogras. Sobrevivendo até aos casamentos, as velhas inimigas cordiais passaram a ser cúmplices ardilosas de uma convivência amável e em boa coisa isso não deve dar.

Não se sabe quanto tempo essa moda vai durar; ainda que temporária a anistia entre sogras e noras pode ser sinal dos tempos de que não vale a pena lutar pela posse de filhos marmanjos e maridos tolos. Afinal, eles andarão sempre mais interessados nos jogos de futebol e nos baldes de chope gelado do bar da esquina.

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