A polidez


Há uma fisiologia da polidez, assevera Antoine-Pierre-Marie-François-Joseph duc de Lévis-Mirepoix, também autor de “Grandeur et misère de l’individualisme français”.

Tinha razão o senhor duque. Corriam os anos do individualismo dos nobres que tudo têm e que tanto incômodo trazem aos que nada têm, aqueles a quem a frívola Maria Antonieta, última rainha de França, aconselhou que fossem comer brioche já que pão não havia. Não à toa a chamavam na corte “l’autre-chienne” (a outra cadela), paronomasia em francês de l’autrichienne (a austríaca).

Michel Eyquem, senhor de Montaigne, filósofo e moralista chamado depois apenas Montaigne, já havia avisado na citação n. 61009: “a polidez custa pouco e compra tudo”.

Mas já não há elegância em liquidação.

Há poucos dias, uma senhora disputava comigo um táxi na base da lei de Gérson. Já havia cedido a vez para outra senhora, fingindo que era dela a precedência. Esta de agora talvez nem tivesse nascido quando eu chegara ao ponto para esperar pacientemente pelo próximo carro.

Na base do cheguei primeiro, vi primeiro, o senhor nem ouse impedir, a nova senhorinha apossou-se do táxi antes que eu pudesse piscar. Aceitei a falta na área, o gol roubado, apenas comentei polido – chateado, mas ainda assim polido: por favor, vá, afinal a senhora tem mais idade.

E o que fez ela quando insinuei a meia verdade da meia idade? Carimbou-me com um sonoro mal educado e, antes de bater a porta, mandou-me tomar no cu. Talvez o merecesse, mas recusei com recatada polidez. Na tréplica, pareceu mandar-me para algum outro lugar que não alcancei ouvir: o táxi em movimento já a levaria para aquele endereço.

As mulheres ainda têm um longo caminho para a plena superação. Não deve ser ela a inimiga de si mesma nessa trajetória difícil.

Mas já são outros tempos: há aí o novo feminismo, toda essa história de bullying – ninguém é gordo, ninguém é velho, ninguém é ninguém, ninguém é de ninguém; todos são alguém com alguma história. As mulheres cruzam as pernas lançando os joelhos sobre os ombros e os homens – aqueles civilizados – ficam cheios de dedos: já nem sabem o que fazer, temendo cometer um crime do gênero. Acenam, olham, fingem não ver? Afinal, a regra é clara, não é, Arnaldo: a mulher põe e tira a roupa que quiser, na hora que quiser, para quem lhe aprouver.

Um amigo que se diz o último romântico lembra-se nostálgico dos tempos da corte e do namoro, inspiração para o supremo momento do amor com todas as suas nuances de paixão. Este foi um momento breve da civilização, que durou do final do período do instinto bárbaro da caça primitiva às mulheres, arrastadas até o amor pelos cabelos, a este em que as mulheres matam o pau a pau e não toleram polidos sarcasmos.