O libelo da Libelu

Libelo é uma palavra que induz imediatamente à peça que resume a acusação formal de um crime, porém peço vênia para sustentar que o termo é igualmente aplicável ao contraditório da defesa. Sim, eu recorri ao egrégio tribunal do Houaiss antes de perpetrar o trocadilho que encerra o título e abre o texto.

Entretanto, no julgamento da ré maior iniciado sem dó, mas com Anastasia geral no Senado, enquanto o libelo acusatório foi apresentado com 9 páginas, simples, objetivo, cabal, pá-pum, a respectiva refutação contou com 675, impressas em folhas extraídas de caules vítimas das motosserras. Sim, senhores jurados dos atuais juízes de ocasião, em termos matemáticos, foram exatos 75 contra-argumentos para cada incriminação infundada em papel.

Convenhamos que não existem sinônimos e combinações que possam condensar o pensamento de que houve golpe parlamentar contra uma presidenta inocenta, sem dolo ou culpa, mas o personal ex-AGU não precisava exagerar na dose.

Imagino que a Rede Sustentabilidade vá fazer um protesto contra a derrubada de árvores, imperdoável desperdício de celulose, sobretudo tendo partido do representante de uma quimérica pátria que se dizia educadora. É o mínimo, mas não vejo como esse crime contra o mundo global e o saco local possa ser denunciado pelo Molón na Câmara ou pelo amazônico Randolfe na Casa Julgadora, nunca tão Revisora.       

Por mais que pareça apelido de socialite, Libelu era a principal linha trotskista dos meus tempos de movimento estudantil, acrônimo sonoro formado por liberdade e luta, dissidência ou coisa parecida da Convergência Socialista, sei lá.    

O fato é que ninguém aguentava as questões de ordem ou de encaminhamento que interpunham para ganhar qualquer parada colocada em votação, tática por meio da qual venciam as questões pelo cansaço. Recordistas de resistência, logo derrotariam os comunistas históricos nos sindicatos, levando ao pódio o assembleísmo, do qual sempre fugi depois das primeiras horas de tédio, desperdício e palavras de ordem.

Revejo os ridículos embates da minha juventude nas atuações patéticas das senadoras Vanessa e Gleisi, e nas intervenções de Lindblearghhh. Em vez de deixar o plenário, como fazia nos tempos de estudante e petroleiro, agora mudo de canal.

Creio que o líder da minoria vai exigir que se leia pausadamente o libelo de defesa. Se a exigência em nome dessa democracia regimental surtir efeito, pode ser que o veredicto fique para depois do julgamento do Cunha.

Noves fora as 675 páginas, é momento de algum escritório oferecer emprego ao tribuno da nova Libelu. O defensor da indefensável é bom de palanque, mas não para falar à turma da mortadela ou pregar à já convertida classe artística, que se contenta com refrões de fora Temer em tons geniais.

Com todo respeito, sugiro que o advogado encaminhe o seu currículo à banca do Thomas Turbando. A afinidade jurídica é evidente.

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