Humanóides inúteis

Um carro preto ou prata, o pisca-alerta ligado: não é uma pane, uma emergência, não é o afoito casal em busca do amor apressado, não é o motorista esperando miss Daisy. Não, nada. É apenas um uber, à espera de mais um cliente.

Param nos meios fios, estacionam nas calçadas, denunciados apenas pelo pisca-pisca intermitente. Logo, logo será localizado pelo cliente como o desejado Pokémon sobre rodas.

Quando você se instala num uber – depois evidentemente de ter instalado o aplicativo –, o carro o recebe com alguma gala. O GPS indicou a procedência da chamada e o destino da corrida. Não há dinheiro: é tudo debitado no cartão de crédito, cadastrado por uma conta corrente e uma senha eletrônica.

O motorista do uber evita ser como o motorista do táxi: afinal, são concorrentes; já foram inimigos mas a desconfiança persiste como se um ou outro fizesse algum transporte clandestino que sempre poderá ser denunciado e até apedrejado por aqueles que não têm pecado.

O uber, um serviço mundial bilionário, já abraçou o concorrente real: acaba de fazer uma sociedade com Didi Chuxing, o chinês que faz quase 2 bilhões de corridas por ano e que, por isso, havia atraído uma graninha da Apple.

E já anunciou que está testando os carros inteligentes. A recente definição de carro inteligente é a do carro sem motorista, como, antes da revolução feminista, era comum serem as mulheres – e sem preconceito, as louras – as chauffeuses burras. Não é preciso dizer mais muita coisa; afinal, a imbecilidade do homem está além da boa prática cinesífora e mesmo as louras são capazes de achar um trouxa educado o suficiente para trocar pneu furado na chuva.

No futuro, os carros se conduzirão por si próprios. Já há, hoje, carros que nos conduzem e nos matam nos acidentes provocados por humanóides; no futuro, os robôs nos conduzirão e nos matarão como inúteis humanos.

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