Uma Nação de órfãos

01/09/2016

Acordamos todos com esse enorme vazio: perdemos ontem o esteio da nação. O que nos protegia e amparava; o que nos dava o sentido da existência. É como se perdêssemos, em um único e trágico acidente, tanto o pai provedor quanto a mãe que acalanta.

Perderam os que viam em Dilma - e no grupo que a apoia - uma esperança de futuro; o sonho de um país focado na distribuição das oportunidades. 

Perderam os excluídos. Os “progressistas” que sonhavam com os programas sociais revolucionários, capazes de humanizar os bancos, repartir a riqueza, o preparo intelectual e os direitos sociais. Perderam os eleitores que ajudaram a fazer o PT.

Perderam também os “conservadores” que acreditaram que acordariam com essa página da história virada. Os que imaginaram um país livre de maracutaias, de conchavos de botequim, de corrupção desmedida e mentiras deslavadas.

E ainda os que apostaram no começo de um governo austero, comprometido com o povo, mas focado no Estado, no interesse de todos, na Res Pública.

Perderam o que acreditavam em lisura como um norteador de comportamento. E perderam os que têm na lisura a sua condição financeira, arrastados pela crise, empurrados pelos empregos perdidos, os lares deixados para trás.

Perderam os que enxergaram em Temer a possibilidade de uma resposta à essa crise; um projeto de governo pautado pela retomada da economia e do crescimento.

Estão órfãos os que votaram em Dilma e Temer.

Mas também estão órfãos os que votaram nos seus concorrentes, os eleitores de Marina, Aécio… E mesmo os que anularam, e os que sequer votaram.

Perderam os que pediram o impeachment e os que o classificaram de golpe. Como perderam os que esperam pelo desfecho de Eduardo Cunha e toda a quadrilha com foro privilegiado.

Perderam os que viram o processo como um rito democrático e os que enxergaram suas tramas farsescas. Os que que concordam com Gleise Hofmann, e os que endossam Ronaldo Caiado.

Não há vencedores. O espetáculo desse julgamento, desde que a voz das ruas começou a sussurrar a idéia, foi inqualificável. As pantomimas do Eduardo Cunha; a intervenção do Supremo; as chicanas da defesa; o governo zumbi; as manobras de Renan Calheiros; a votação patética na Camara; os comentários dos “intelectuais” sobre as falas dos deputados, e, para não alongar mais, a execrável esperteza dos minutos finais. O patético discurso de Renan, o presidente do STF ultrapassando pelo acostamento, a posse de Temer. Tudo embalado pela marcha lenta da justiça, aqui e ali acordada pela “furiosa” banda da Lava Jato.

Não sobrou nada em que acreditar. Não há o que sustente uma ideologia, o respeito pelas instituições, ou a esperança na humanidade. Fomos esvaziados de fé.

Bertold Brecht celebrizou um diálogo maravilhoso em Galileu Galillei: na boca de Andrea Sarti, o ajudante que se decepciona quando o sábio renuncia à ciência - “Infeliz a terra que não tem heróis.”

E na boca do sábio, a resposta - “Infeliz a terra que precisa de heróis”.

Apenas para não ser injusto, quatro performances foram de tirar o chapéu: Janaína e José Eduardo Cardoso, o arguto Magno Malta e o indignado Fernando Collor de Mello.

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