Cada um tem um segredo

O segredo de uma criança pode se esconder numa velha boneca que tudo ouve ou num pedaço de pano esfarrapado e mudo, que saberá guardar tudo.

Mas não é dos segredos ingênuos e das fantasias do mundo infantil que tratamos.

Nem de segredos de alcova, traições ocasionais, furtos oportunistas. Aqueles que se escondiam por detrás de leques, quando os leques foram retirados das molduras e voltaram à moda como ferramenta de sedução e mistério, ou de salemliks, salaam aleikums, os salamaleques trazidos das mesquitas para os salões.

Um parente chupava dedo aos 70 e mais anos. Tinha-o como segredo, mas a família toda o sabia; nas festas e nos enterros cada um, a seu tempo, cuidava de examinar quão deformado ia o polegar esbranquiçado e já quase sem unha.

Também não é o segredo dos homens públicos que escondem hoje, como mágicos escondem pombos nas cartolas, o que disseram ontem e revelam em confissões interesseiras apenas as delações interessadas.

O verdadeiro segredo é aquele que alguém guarda bem fundo e não pode nunca revelar.

Aquele segredo que esconde a miséria, a hipocrisia e a fraqueza, matérias de que são feitas as misérias humanas.

Conta-se que um velho cardeal procurou o Papa para confessar seu arrependimento pelo mal causado a uma criança inocente. O Papa paciente e magnânimo procurou confortá-lo da culpa, lembrando que tais abusos eram prática corriqueira na velha igreja, erros já superados e, por isso, perdoados. O cardeal admitiu apenas: “foi ontem, Vossa Santidade”.

Quanto mais falamos, menos dizemos. Quanto mais escrevemos, mais escondemos. No transe dessa amnésia psíquica, quanto mais pensamos, menos nos lembramos. Até o momento em que a lembrança belisca aquele canto escondido da memória e a pequena cicatriz se reabre, trazendo de novo o estremecimento, a emoção e o medo.

É elementar que cada um vive em seu elemento, seja o ar, a terra, a água, embora haja quem viva no mundo da lua. E como cada um tem o seu tempo, fica a esperança de que, no devido tempo, cada segredo será revelado. Talvez naquele quarto de minuto primo que se verifica a cada quarto de milênio e que os astrônomos guardam em segredo como sacerdotes das chaves do tempo.

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