What's Aleppo?

Recentemente, um dos candidatos presidenciais norte-americanos, surpreendido por incômoda pergunta sobre conflitos na Síria, indagou aos repórteres “What’s Aleppo?”

Não revelou apenas ignorância sobre a gravidade dos conflitos na região, revelou insensibilidade para os problemas relevantes do mundo. É assunto que não comove o americano médio como não comove o brasileiro ou o ocidental.

Não comove porque está distante. Não importa porque não é conosco. Mas já incomoda o vizinho mais próximo, o europeu. Já provocou a ruptura da zona do euro. E é tema de campanha de fobia ao estranho estrangeiro.

Alguns países vêem o problema pela luneta míope da segurança nacional. A hipocrisia diplomática já criou o pomposo dia mundial do refugiado, iniciativa da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). Crise migratória a denominam, na estratégia da geopolítica da sobrevivência. Caso de polícia para a OTAN, para a Frontex, no interesse dos interesses políticos e econômicos.

A Síria está destruída por um conflito geopolítico em que a sua fraqueza interessa um bocadinho a todos, menos aos sírios. Os Estados Unidos e a Rússia, de um lado, Turquia e Israel, de outro. A cada solução encontrada, um novo problema é criado.

Aleppo é o centro econômico, a maior cidade da Síria. Foi sede do califado, capital do sultanato. Parece que a mão de deus guia a mente criativa do cronista. Ainda agora, L. F. Veríssimo lembrou as referências de Shakespeare e Nabokov a Aleppo em “Otelo” e em “That in Aleppo once”, no dia em que um ser maligno amou “não sabiamente mas demais”.

Agora, após milhares de mortos e milhões de refugiados, ressurge a proposta diplomática do acordo de cessar-fogo.

Em fuga das zonas de conflito, para não morrer sob as bombas, refugiados vão morrer de fome ou de tuberculose, ou afogados no Mediterrâneo. Fugindo da violência ou da fome, catando nas latas de lixo um pedaço de pão ou um trapo de pano para proteger os pés descalços. Fugindo para não morrer ou ver os filhos morrerem como o menino mártir Ayslan, o corpo estendido na praia turca .

Quantos barcos mais deverão naufragar nesse tráfico de carne humana? Vinte mil mortos já lançados ao mar, de acordo com a Organização Internacional para as Migrações, sonhando alcançar a selva de Calais.

Crise humanitária? Problema de todos é problema de ninguém.

A Síria está destruída e, ainda assim, é cobiçada. O poder é isso.

Não conseguimos distinguir o drama de um refugiado do drama de um imigrante, como não se pode distinguir o drama de um miserável do drama do homem, do drama da humanidade.

Somos todos refugiados. Somos todos imigrantes. Somos todos miseráveis.

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