O quando e o onde no tempo e no infinito

 

A ruptura das abóbodas é uma libertação, escreveu Giordano Bruno, o frade levado à fogueira pela heresia de pretender se aproximar demais de deus ao revelar na obra Del infinito Universo et Mondi os segredos da criação.

Agora a extraordinária fotografia da Via Láctea, com 46 bilhões de pixels, vem revelar de uma só vez 1 bilhão de estrelas mamando nos úberes fartos desse doce caminho leitoso, quase uma estrela para cada poeta em seu amargo mundo e sua distante amada.

Além de expor a beleza do universo, o mapa da Via Láctea presta reconhecida homenagem aos fotógrafos e à fotografia, agora elevada à nobre categoria das ciências. E, ao aproximar o homem do espaço poético das estrelas, o distancia ainda mais do tempo e do infinito, dois enigmas que a fotografia astronômica não poderá desvendar.

Vi noutro dia ilustração datada do começo do século passado sobre o que deveria ser o século XXI, previsão tosca de quem nada ouvira acerca de Copérnico em De Revolutionibus Orbium Celestium ou sequer viajara à lua com Jules Verne.

Napoleão teria comentado, quando lhe falaram da navegação a vapor, que um navio que não se movesse a vela poderia vir a ser, no máximo, um brinquedo. Na ambição de suas conquistas, não pôde compreender o enigma do avanço tecnológico.

Nem todos compreendem. Jorge Luis Borges, em A Esfera de Pascal, lembra que “o espaço absoluto que para Bruno fora uma libertação, foi um abismo para Pascal”, que abominava o universo e lamentou que o firmamento não falasse.

Transcrevo Borges sobre Pascal (J. L. Borges, Obras Completas II, A Esfera de Pascal): “Sentiu o peso incessante do mundo físico, sentiu vertigem, medo e solidão, e expressou-os em outras palavras: “A Natureza é uma esfera infinita (queria dizer, terrível), cujo centro está em toda parte e a circunferência em nenhuma”.

“E os homens sentiram-se perdidos no tempo e no espaço. No tempo, porque, se o futuro e o passado são infinitos, não haverá realmente um quando; no espaço, porque, se todo ser eqüidista do infinito e do infinitesimal, tampouco haverá um onde”.

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