Civilização e Barbárie

Noutro dia circulou pelo território selvagem da internet selfie de orgulhosa família americana exibindo rico troféu – um elefante jovem abatido numa reserva africana. Onde os adeptos da caça esportiva viam a consagração maior do nobre esporte – esse de abater leões e animais selvagens como satisfação da adrenalina de reis, outros viam deplorável e covarde ataque ao indefeso animal. Alguém chegou a comentar na legenda da foto: vejam, um elefante e cinco animais.

Por volta de 1550, marinheiros normandos levaram índios tupinambás para a grande festa em Rouen em homenagem ao rei francês Henrique II e a rainha Catarina de Médicis. Expor os abaporu, índios tupinambás do Brasil selvagem, à corte francesa pareceu exaltação do poder absoluto dos bravos conquistadores da nova terra, inculta e bela, onde ambicionavam instalar a fracassada França Antártica e livremente explorar o pau Brasil, o “pernambouc”.

O relato é de Ferdinand Denis em “Uma Festa brasileira celebrada em Rouen em 1550”, enriquecida pela ilustração “Des Brisilians”. Era a vitória da luz sobre a treva, da civilização sobre a barbárie, e assim os canibais nus foram apresentados à nobreza num momento em que a civilização acabava de dar elegante passo na etiqueta à mesa: substituir os dedos engordurados pelos garfos.

Foi moda expor indígenas da Terra Brasilis à corte. Também Carlos IX os recebeu exaltando as conquistas de França. Onde uns, com sua nobre curiosidade, viam selvagens em estado puro, outros viam puros selvagens expostos à impura nobreza. Essa observação vem de Montaigne em “De Canibalis” que não distinguia a prática civilizada de lançar corpos vivos aos cães e aos  porcos da prática selvagem do canibalismo entre os tupinambás. Via até mais barbárie em “que tanto condenemos suas faltas e tão cegos sejamos para as nossas”. Esses índios ficaram por lá ao deus dará e, como bons reprodutores, devem ter contribuído de algum modo para o espírito revolucionário francês.

Conheci no Chile a história que bem retrata essa por vezes falsa dicotomia entre civilização e barbárie: uma tribo inteira de índios foi dizimada pela pneumonia e pela peste branca simplesmente porque os religiosos espanhóis os forçaram a se vestir “pro pudor et pro abstinentia” em respeito aos céus. Suportando por sucessivas gerações as intempéries do frio e da chuva, terminaram por se constipar com as roupas molhadas e assim morreram vítimas da civilização e da intolerância.

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