Está na mesa

A expressão, normalmente utilizada para convocar as pessoas de casa para as refeições, convida a uma reflexão sobre o jantar no Alvorada. Isso porque o Palácio foi aberto às Casas do Legislativo com a função precípua não de influenciar os votos necessários ao teto dos gastos, mas a de reunir os parlamentares sob o mesmo teto. Para tanto, era mandatório conservar os aliados em Brasília, à disposição do mandatário. E, sobretudo, manter ou trazer para a Capital as respectivas acompanhantes.

Para tanto, a presença da primeira-dama foi fundamental, pois a fama de recatada e do lar, longe de adquirir o sentido pejorativo desejado pelas viúvas da presidenta, despertou a curiosidade das esposas dos congressistas, bastante interessadas nos modelitos da bela dona-de-casa.

Marcela, perto de Temer uma Criança Feliz, queria tudo nos trinques para uma noite perfeita, apesar do mau-olhado lançado pela Procuradoria Geral da República ao final da sexta-feira, quando os convites já estavam nas ruas. Ou melhor, nas super-quadras e gabinetes.

A despeito do mau-agouro da oposição despeitada, a Comunicação do Planalto descobriu que Marcela é o melhor antídoto contra as mesóclises sem ritmo pigarreadas pelo cônjuge. Seus graciosos vestidos sem manga fazem o contraponto perfeito ao traje formal do marido, razão do jantar. Não por acaso o Presidente da Câmara apareceu em mangas de camisa.

Quem chegou cedo pôde ver Michelzinho com seus carrinhos espalhados pelo salão envidraçado, parecendo uma montadora do ABC sem subsídios ou desonerações fiscais. Já o trenzinho fora dos trilhos lembrava o histórico da Ferrovia Norte-Sul, cujo destino ainda depende de muito feijão, a exemplo do menino, entregue à governanta não golpeada. A ressalva merece o presente destaque em função do fantasma que ainda ronda e assombra o ambiente arrastando correntes de Fora Temer.

Recebidos pelo Presidente e acomodados pela radiante dona-de-casa, o cardápio prometia. “Estamos cortando na carne” – logo anunciou o anfitrião, ao tempo em que a opção entre a tradicional sopa do Zarur e um angu de caroço assinado pelo chef Gomes passou a ser avaliada como pièce de résistence.

Com a escassez de mortadela, produto pela hora da morte, tudo leva a crer que os distribuidores da recheada bolsa-manifestante apelarão aos algozes coxinhas do Ministério Público Federal.

No dia seguinte ao repasto, as cartas estão na mesa, inclusive as de vinho encorpados, bem a gosto das corporações privilegiadas dos três poderes.

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