Primeiramente, Fora Tetas!

“São Paulo dá café, Minas dá leite e a Vila Isabel dá samba”.

Sérgio Cabral nos conta que Noel Rosa escreveu Feitiço da Vila em 1934, em um sensacional duelo musical com Wilson Batista, que, entre rimas, defendia as sonoras virtudes do Estácio.

Mas isso foi nos tempos do onça, coisa de quem sequer imaginava que o Rio seria produtor de petróleo das profundezas, na época uma façanha exclusiva de gringo adotado pelas então sete irmãs, filhas legítimas ou bastardas da Standard Oil. A Petrobras ainda aguardaria duas boas décadas para nascer, desmamar e crescer, ainda em ambiente majoritariamente rural.

O célebre verso, típico de economia agropecuária, foi cantado muito antes que o dito ouro negro aparecesse no Rio de Janeiro para inaugurar o tempo das vacas gordas, coroado com guardanapos às margens do Rio Sena. E a riqueza viraria a praia do filho da enciclopédia do samba, a despeito de não ser extraído do Leblon, mas ao largo da costa.

Entretanto, é no elegante bairro carioca que o principal transmissor da nossa doença holandesa mora com suas costas largas e quentes quando não está descansando na Costa Verde.

Dutch disease é uma expressão da macroeconomia que traduz a paralisação de diversos setores produtivos em nome de uma momentânea fase de prosperidade de determinado recurso natural, abundante e bem cotado no mercado.

O mal, apesar de não ser transmitido pelo mosquito aedes aegypti, e de ainda não ter sido erradicado daqui, parece ter tomado gosto pelo clima tropical, a ponto de estar Maduro para ser naturalizado venezuelano.

Malgrado o justificável ciúme dos produtores de gado nelore, holandesa também é a nossa vaca padrão, a top of mind da sociedade brasileira, sem qualquer alusão aos chifres, talvez aquela na qual tenha se inspirado Nélson Rodrigues para cunhar a sua expressão máxima relativa à saúde: vaca premiada.

Apesar de conhecer como ninguém a família carioca, o mestre do cotidiano, que escreveu a vida como ela é, ainda não conhecia a vaca superfaturada, igualmente coisa de família, também coisa de denúncia vã, como um beijo no asfalto ou uma bela, tentadora e incestuosa mamada nas tetas.

Bem mais recente, o pivô da trama responsável pelo leite longa vida parlamentar das crianças da cúpula do PMDB fluminense também pertence ao cancioneiro popular em Paris e no Leblon.

Ela é Carioca, não a obra de Tom Jobim, mas a empreiteira de obras do Petrolão. Vamos ver o jeitinho que ela vai andar no processo de ordenha de provas líquidas.

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