Sofismas paradoxais

Artur Versiani Veloso, velho professor de Filosofia, gostava do sofisma segundo o qual, se uma carroça puxada um burro fizesse tal percurso em uma hora, a mesma carroça puxada por dois burros o faria na metade do tempo, até que, puxada por cem burros em fila, estaria lá e cá, nos dois lugares ao mesmo tempo.

O sofisma improvável se resolvia enfileirando-se os cavalos ao longo do trajeto, de modo que a carroça, antes mesmo de partir, já teria chegado ao destino.

Nesses tempos apressados, é muito comum meterem-se as carroças na frente dos bois ou comer a merenda antes da aula.

Há pessoas que chegam ao destino antes mesmo de se porem em movimento, mas é sabido que, em geral, o apressado come cru. Como aqueles ansiosos, que trazem já a solução antes do problema.

Marquês de Sade recomenda esconder na volúpia os sofismas inúteis da superstição e os erros imbecis da hipocrisia.

Sofista famoso, Górgias de Leontinos defendeu em “Da Natureza do Inexistente”, obra infelizmente já perdida, que nada existe, tudo é ilusão.

Outro que os conceitos e princípios que só se aplicam a verdades abstratas como a matemática pura são sofismas inúteis, pois todos os conhecimentos humanos geralmente úteis extraem sua certeza de experiências analógicas universais, do acúmulo das probabilidades de um raio cair duas vezes no mesmo lugar, e do dever racional de crer para sobreviver.

Há agora nos muros o grafite “Todo mundo mente; menos eu”. Deve ser alusão ao paradoxo do mentiroso, que reúne afirmações aparentemente paradoxais como “estou mentindo agora” e “esta afirmação é falsa”. Ou “a afirmação seguinte é verdadeira” seguida de “a afirmação anterior é falsa”. É caso típico de falsos paradoxos que, em si, se resolvem, pois o que parece ser verdade em um momento, logo em seguida se desmente. Como se se atassem dois falsos nós que se desfazem justamente quando são atados, exatamente como fazem os mágicos ilusionistas e os pescadores mentirosos.

Assim como deve haver uma solução para cada problema, o falso problema, aquele que não existe, não tem solução. Ou, como constatou Henry Louis Mencken, para cada problema complexo existe uma solução que é clara, simples e errada.

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