Por quê não vendemos conselhos

Não me dêem conselhos: sei muito bem errar por mim mesmo.

Este seria o conselho apropriado para sábios e filósofos de tantos estudos e certezas sobre tudo, mas que mal sabem cuidar da própria vida, já que nem sempre conhecimento é sabedoria.

Ou para os fariseus do sucesso a qualquer preço e os ilusionistas da paz espiritual.

Ou para a cartomante que promete trazer o amor de volta em 3 dias.

Ou para os gerentes de instituições financeiras que trazem sempre na cartola um coelho ainda mais rápido para levar a perder o que resta do nosso pouco dinheirinho.

Ou para os iniciados da alimentação saudável que ora demoniza e ora endeusa o ovo, a manteiga e o torresmo e têm o segredo do regime alimentar que garante a perda de peso durante o sono, sem qualquer esforço adicional.

Ou para tantos religiosos, tarados pedófilos, que pregam no sermão dominical a castidade e o respeito.

Há hoje na web conselhos para tudo: de enriquecimento rápido ao clareamento de dentes, de como manter um casamento ou de como esquecer alguém. Como antes havia os conselhos dos desenhos animados ou os conselhos morais de Seleções Reader’s Digest.

Conta-se que o guri, perdido nos pampas, foi provocar o gaúcho a beber mate na beira da estrada, em busca de um conselho: “Bah, chê, velho, como faço para sair dessa merda de lugar?” O homem respondeu com o violão: “não é assim tão difícil. Seguindo em frente irás à merda, voltando poderás sempre voltar para a puta que te pariu, mas, se por acaso quiseres ficar, poderás muito bem vir tomar no cu”.

Entre as apostas do prado e os conselhos da vida, “meu mal foram as mulheres ligeiras e os cavalos lerdos”, confessou o também gaúcho Flores da Cunha ao ver-se velho e pobre, depois de ter sido senador, general e rico fazendeiro.

“Aceita o conselho dos outros, mas nunca desistas da tua própria opinião”, recomendou William Shakespeare.

Ergo, caution is best. Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.

Eu mesmo tenho conselhos para dar ou vender e ninguém nem ao menos quer deles saber.

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