Alô, Ana Júlia

Por falta do seu candidato na disputa, Lula não foi votar em São Bernardo, seu reduto eleitoral. E anunciou previamente a decisão do boicote com base na sua faixa etária, avançada quando bem lhe convém. Por meio do gesto, incentivou a abstenção por meio da não obrigatoriedade que seus 71 anos lhe conferiam. Por tabela, justificou o voto nulo consciente, avalizou o alheamento do branco e ajudou a jogar por terra os esforços de quem, à direita, pelo centro ou à esquerda, procurava iluminar o caminho para a passagem do menos pior ao seu município. Sem a menor dúvida, Lula exerceu na plenitude o papel que sempre adorou – o de divulgar aos apóstolos, beatos e fiéis de que sem ele não há salvação. 

Alheio em casa, o faltoso não deixou de visitar a dos outros, inclusive a minha, de carona, pela mensagem massiva que conseguiu pela imprensa, largamente reproduzida pelas redes sociais três dias antes do pleito. E como? Vamos à narrativa, pois.

Às vésperas do ENEM, este final de outubro eleitoral aqui e ali foi marcado por milhares de compartilhamentos do discurso da jovem Ana Júlia na Assembleia Legislativa do Paraná. Aos poucos que não assistiram ao show, a performance juvenil tratou das ocupações das escolas secundárias, ocorridas nas últimas semanas. Por sinal, imagino o tamanho do bullying político que os adolescentes mais tímidos andam sofrendo por parte dos mais engajados. Tiro isso pela minha luta para passar em Engenharia na UFRJ e pela experiência de ser pai de dois filhos já crescidos. 

A garotada, sim, tem o direito a ser alheia à política, a preferir estudar para a prova nacional do ensino médio, o novo vestibular. Quando não ir ao cinema para espairecer. Ou jogar futebol, vôlei, handebol, queimado, videogame. Nessa altura do campeonato, o que não quer nada pode encarar uma maratona em série do Netflix. Ou ficar simplesmente de bobeira num aplicativo imbecil qualquer. 

Mas não. Apoiados por muita gente, especialmente por professores da área de Humanas, muitos alunos ocuparam as escolas motivadas por discursos que não entendem ou conseguem digerir e que, por este motivo, devem chegar passados no liquidificador do maniqueísmo, máquina que é uma verdadeira Brastemp.  

A reboque do espetáculo previamente programado aos deputados do Paraná, surgiria no script um apêndice sinistro: a morte de um aluno, assassinado por um colega, crime cuja culpa a estudante levada à tribuna atribuiu à parte da plateia composta de parlamentares. “Mãos sujas de sangue” é uma fala que sempre agride e agrada. Sim, a outra parcela comportava a claque, em agitada atividade cívica extracurricular. 

O relato, com menções ao velório da vítima, é tocante. Entretanto, pelas acusações levianas aos deputados, tudo indica que não passava de constrangedora exploração do trágico acontecimento. Reputo o drama uma cena oportunista contra a MP da reforma do ensino, mas, sobretudo, de protesto pela PEC 241, a que trata do limite de gastos do governo, proposta necessária para combater a volta da inflação descontrolada, mal que a oradora não viveu por ter nascido após o plano real, sempre combatido por Lula. 

Soube pelos jornais que a jovem pertence à União Brasileira de Estudantes Secundaristas, espécie de cursinho vestibular para a profissionalização da aparelhada UNE. A entidade é controlada pela órbita petista, sobretudo pelo arcaico PC do B, entre outros partidos que anteciparam o movimento estudantil para atrair a criançada, principalmente a parcela que conta com mais de 16 anos e menos de 18, a que tem a opção de votar, como Lula passou a ter pelo extremo oposto. 

Por óbvio, o retumbante sucesso do show chegou aos ouvidos do líder 171 que completava em primaveras a dezena do artigo do código penal. E, naturalmente, o rei do autoendeusamento não perdeu a chance de tirar uma casquinha para sair bem na foto de pelo menos um bolo preparado em Curitiba: "No dia do meu aniversário, ganhei o presente de ver essa menina falando.” Acreditem! Logo ele, que nos impôs a pior oradora que qualquer tribuna já viu. Todos nós sabemos que pior que Dilma falando, só governando.

Muito bem, o bastidor é que o personal escritor do Instituto Lula, o ex-ghost writer oficial, aquele sempre preterido nos memoráveis improvisos de palanque, conseguiu, enfim, emplacar um discurso como retribuição ao revigorante presente de aniversário. Apesar de los hermanos estarem com Macri, todos muy amigos do Itamaraty do Serra, ao telefone, com a voz rouca, o mártir da Lava-jato mandou ver na gravação, autorizada pela justiça.  

Quem te vê falar assim no fim / Não sabe o que dizer / Penso em ver você, assim, minha doutrina / Contemplar Psol no teu olhar, poder compartilhar / Na certeza de um clamor / Te achar ousada / Pois ao ver teu caminho / Enxergo a Narizinho / Defendendo o Petrolão / Oh, Ana Júlia / Oh, Ana Júlia 

Nunca acreditei no mensalão / Mas não sobrou pra mim / Me atormenta a previsão do pior destino / Eu passando o dia a esperar / PF a me cercar 

Quando tudo tiver fim, você vai estar com a cara / Estampada em santinho /
Será sempre um caminho / Usar a população / Oh, Anna Júlia / Oh, Anna Júlia

Sei que você já não quer o meu favor / Sei que você pensa que estou no fim / Eu sei que eu não sou quem você sempre apoiou / Mas vou reconquistar o eleitor jovem pra mim / Oh, Anna Júlia / Oh, Anna Júlia / Conto com você.

Please reload