O legado do tempo

Não, não é aquela idade em que já se esquece o nome e o endereço – é aquela um pouco antes dessa em que se despede da idade de todas as certezas para se entrar na idade de todas as incertezas.

Já repararam: o homem amadure depois da mulher e, no entanto, envelhece antes. Agora velhaco, já dorme pouco porque teme não estar vivo ao acordar.

A este, é proibido ler Schopenhauer e Nietzsche, como na juventude eram-lhe proibidos os filmes americanos com beijos que, na medida das tesouras dos censores, ultrapassassem os 27 metros de película. Era esta naquele tempo a medida da moral: 28 metros de celulóide. Os filmes eram de cena muda: Carlitos era apenas Carlitos e os homens usavam frisa-bigodes e chapéus.

Cada um com sua aflição, cada qual carrega a sua cruz. Nem mesmo a reedição de Clarice está liberada: pode azedar a sopa do já azedo velhote.

Sobrou o tempo. Somente os jovens sofrem da falta de tempo; aos velhos sobra o tempo.

Como lembra o argentino Borges, os velhos são do mesmo tempo que o tempo: os velhos são o tempo.

Quando lhe cedem o lugar na fila, quando tem precedência na repartição; aliás, voltar para casa, depois de alguma internação hospitalar, é como voltar para o cativeiro, ansiando pela reabertura da repartição. Quando o coração bate mais forte pelos netos, quando é a referência da família que lhe restou: é o velho que restou dentre tantos velhos.

O homem encerra o seu ciclo quando se comporta como uma criança de dois anos e ganha no dia do avô, entre dores e calafrios, o mesmo presente do neto: fraldas.

Tal qual criança, não é recomendável que fique sozinho, longe do olhar responsável. A atenção é do cuidado: não deve ser deixado ao sereno sob risco de pneumonia que lhe agravará o reumatismo. Um banho de sol, ao contrário...

Quando se apagam as tatuagens amargas do coração, cravado de mágoa e ressentimento.

Quando vai longe o gosto da última colher de óleo de fígado de bacalhau. Quando os pensamentos indesejados já não escondem desejos, quando as vontades já estão mortas, vai vivendo de pequenas lembranças e grandes esquecimentos. As grandes lembranças já se corromperam no arquivo da memória.

Achando já mais diversão no reconhecimento de amigos nas esquinas do cemitério do que nas reuniões dos inimigos vivíssimos. Quantos restaram do velho álbum de retratos?

Nenhum rosto vem à memória. Tudo é passado sem cor. Em vez de alegria, melancolia e mau humor ranzinza. As grandes dores – as dos outros, aqueles ingratos – são pequeniníssimas.

Mas ainda não é o fim, é apenas Finados: amanhã poderemos visitá-los.

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