Dia de Finados


“Não resistiu ao golpe. O estado de coma não induzido dificilmente será revertido” – já revelava o boletim médico divulgado há um mês, precisamente às primeiras horas da noite do dia 2 de outubro.

Morte cerebral comprovada, não tardou para que o atestado de óbito fosse assinado pela doutora Jandira, por sinal a última profissional a tentar a salvação do moribundo com uma intervenção boca-a-boca de urna.

Entretanto, ao transportar o paciente para a sua unidade de terapia intensiva, viu a sua enfermaria ser imediatamente contaminada pelo mal, endêmica apenas no Acre.

O estado terminal do Rio de Janeiro foi capital para o passamento do ente querido por poucos depois de devastado pela metástase da corrupção partidária. Intoxicação por consumo desenfreado de petróleo. Um veneno – asseguram alguns especialistas na doença holandesa.

Depois de ter alguns membros sãos transplantados, mal os aparelhos eletrônicos foram desligados no final da tarde do último domingo, o partido não resistiu. Sabe-se que em seus últimos instantes de vida, já sem qualquer lucidez, apegado apenas às palavras de seu pastor todo-poderoso que nada sabe e nada vê, recusou, entre cínico e orgulhoso, o caminho do arrependimento, necessário à extrema-unção.

Sem consolo, após cerimônia de corpo funcional presente na Praça da República, os brasileiros e brasileiros em geral deverão conduzir o cortejo fúnebre ao Cemitério da Consolação, ainda que manifestações a favor do féretro ainda possam causar distúrbios nas principais artérias do país.