A fenomenologia dos bares

O cronista Humberto Werneck acaba de garimpar, nos perdidos do pernambucano Antônio Maria, essa pérola angustiante do existencialismo de botequim: “de que serve esse apego ao futuro, se a capital de Honduras é Tegucigalpa?”

Nem Sartre, nem Camus foram tão longe numa simples indagação. Talvez o capixaba Carlinhos Oliveira, outro cronista dos amores perdidos e dos enjôos ao luar, tenha chegado perto na transcendência de uísque e soda decantados em desencanto na fenomenologia da boemia.

O existencialismo dos bares se desequilibra entre a necessidade ingênua e faminta de crer e a desejo impositivo de negar. Entre a sede de acreditar e intoxicação de não aceitar.

Vomitar é o melhor remédio para a náusea da descrença.

No final desse embate entre o instinto da ironia e do cinismo cético, e a vontade de chorar, implorar o perdão e morrer em paz, fica o que Pitigrilli – que se deu esse nome para ter a oportunidade de, por quatro vezes, pôr os pingos nos is – aprendeu com Victor Hugo: “près du besoin de croire, un désir de nier, et l’esprit que ricane auprès du coeur qui pleure”.

Os ateus de botequim sofrem dilacerados entre duas forças: a que faz fugir de deus e a que induz a procurá-lo. Martirizados entre a fragilidade suicida de amar demais e o egoísmo covarde de não conseguir amar.

Porque não trocar a ilusão de deus pela realidade efêmera do amor dançante da musa do cabaré e afogar na varanda do Antonio’s mais essa frágil paixão, acima de toda compreensão e de todo desentendimento que as palavras trazem escondidas?

Baudelaire costumava queixar-se de que, nas declarações dos direitos do homem, se esqueceram de incluir o grave direito de contradizer-se ou de mudar de opinião. Tão comumente o intelectual é um imbecil em matéria de amores e quereres que deveríamos sempre tomá-lo como tal, até prova em contrário.

O intelectual mortificado precisa ir além do desespero para encontrar a esperança. “Quando chegamos ao fim da noite, encontramos a aurora”, confessou o escritor católico Georges Bernanos. O autor judeu Sacha Guitry, também perseguido durante a guerra, disse à mulher ao ser preso: “Até agora, vivemos na angústia; de hoje em diante viveremos na esperança”.

Da libertação da crueldade de viver e de pensar.

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