Cada um vê o que quer

Durante meses, imprensa, institutos de pesquisa, analistas políticos fizeram o mundo crer que a hilária Hillary seria presidenta dos Estados Unidos da América, batendo o falastrão Donald Trump, pato manco desde o começo da corrida presidencial.

Trump era considerado outsider e louco: não conseguiria a indicação do Partido Republicano para concorrer à presidência. Conseguiu. Não conseguiria vencer a máquina da oligarquia Clinton e de seus financiadores. Venceu. Tromp d’oeil!

Agora, as explicações são da mesma bizarrice. Venceu por conta dos votos dos envergonhados, aquela maioria que não se revela para os institutos de pesquisa e não se apresenta para entrevistas com repórteres políticos e, por isso, seus votos não podem ser percebidos.

Nas inúmeras projeções de números e preferências, nas análises de comportamento do eleitor, sob chuva, ao sol, jovem, imigrante, conservador, todos erraram feio.

Todos deixaram de lado os detalhes. E é certamente nos detalhes que tem endereço o diabo.

Há uma velha assertiva, tão antiga quanto Roma, que jornalistas e analistas costumam dela se esquecer e, por isso, é sempre bom relembrá-la: de uma falsa premissa, todas as derivações são admissíveis. Hillary estava eleita por antecipação porque estava eleita. Favas contadas.

O homem prefere acreditar não na verdade, mas naquilo que quer que seja verdade. E, por isso, freqüentemente se engana. Como, quando paga para ver o mágico tirar da cartola vazia o lenço, o pombo e o coelho.

E há os que, como avestruzes, se recusam a ver.

Conta Pitigrilli, sempre ele e mais uma vez, que passando por Paris quis Humboldt almoçar com um louco. No dia seguinte, já à mesa, estavam seu amigo, o famoso alienista Dr. Blanche, e dois senhores, um de casaca preta, gravata branca e olhar frio – que cumprimentou, comeu e bebeu, sem dizer palavra – e outro, com cabelos desalinhados, mal vestido, que falava pelos cotovelos, fazendo perguntas para dar ele mesmo as respostas, e sobrepondo histórias antigas a fatos recentes.

À sobremesa, Humboldt curvou-se para o anfitrião e, com uma piscadela de rabo do olho, agradeceu a oportunidade do rápido convívio com aquele personagem tão vivo e engraçado: “esse seu louco divertiu-me bastante”, comentou.

- Como, Dr. Humboldt? Mas o doido não é aquele, é o outro, o que ficou sossegado e não disse palavra, sussurrou o médico de loucos.

- Mas, afinal, quem é esse? quis saber Humboldt.

- Balzac, o escritor.

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