Árvore de Natal

Para azar do mercado de ambulantes de pista e sinal, farol e semáforo para os bravos aventureiros visitantes, a crise revelar-se-á tão aguda quanto a ponta de uma estrela. Ainda por cima, cadente, como a mesóclise o foi até ser redimida. 

Todavia, para a felicidade da maioria dos moradores da Zona Sul do Rio, que sofrem com horário estendido do habitual engarrafamento noturno em volta da Lagoa, gigantesco desde a tarde, a árvore de natal mais conhecida do País não será erguida neste final de ano. Vai que aquele vento não estocável volta a soprar. 

Já sob o prisma do petróleo das nossas bacias, pivô industrial da crise financeira vivida pelo estado do Rio de Janeiro, árvore de natal era coisa a ser plantada durante o ano inteiro. O nome da geringonça surgiu no início do século passado, quando habitantes de províncias petrolíferas situadas em regiões frias dos Estados Unidos associaram o equipamento, coberto de neve, a um pinheiro de Natal.  

E como o monstrengo ianque adaptar-se-ia ao mar dos trópicos? Considerada a obrigatória falta da precipitação atmosférica em flocos que deu origem ao termo, nem mesmo a ausência de chaminés marítimas, que impediria a fiscalização anual de Papai Noel, constituiu fator determinante para que o conjunto se visse destituído da alcunha natalina. 

Ao contrário, a força do apelido de inverno setentrional foi tamanha que, quando a indústria em todo planeta foi deslocada para as águas rasas das plataformas continentais, não foi necessário que os mergulhadores pendurassem seus pés-de-pato nas válvulas de acesso para a tradição vingar. Nem mesmo nas inúmeras zonas em conflito no Oriente Médio, onde o messias ainda há de chegar ou não foi reconhecido como tal.

As águas cada vez mais profundas prescindiram dos mergulhadores para a colocação do robusto equipamento instalado nas cabeças dos poços submarinos. No lugar deles, veículos de operação remota. Fiel à analogia, os presentes, recebidos em forma de barril, poderiam gerar divertimento, bem estar e gordas poupanças. Isso se a doença holandesa, então endêmica na Venezuela, não tivesse atingido os nossos francófilos governantes estaduais, que contaram com joias em Mônaco, guardanapos em Paris e, sobretudo, com o ovo no pescoço francês da galinha.

Com o barril de petróleo acima de 100 dólares no mercado internacional, os royalties resolviam tudo, dos penduricalhos de deputados, magistrados e promotores à polpuda remuneração dos felizardos sem teto. Apesar do auxílio moradia, de cunho indenizatório, porém um benefício com todo jeitão de vantagem incorporável na forma da lei, o teto em questão é o estabelecido pelo vencimento do ministro do Supremo.  

O contracheque de um alto servidor do Judiciário, justamente aquele que determina o régio cumprimento da cota de farinha para o seu pirão corporativo, parece uma árvore de natal, tantos são os penduricalhos presos na folha. 

Com o estado no fundo do poço, e a arrecadação fazendo água, vai ser difícil conservar os múltiplos privilégios, aberrações legais denunciadas por Collor em 1989, questão sempre indutora de revolta popular, motor da campanha de marketing político que inauguraria o estelionato eleitoral pós-ditadura.

Como eu não acredito em Papai Noel, e as árvores de natal molhadas ficam bem escondidas, sob enorme pressão, creio que os seguidores de Cabral apelarão para o amigo oculto em Brasília. Ou secreto, no linguajar dos bravos aventureiros em visita ao balneário decadente, desgraçado pela sedução francesa, pela doença holandesa e pelo direito romano. Afinal, somos olímpicos e cosmopolitas.

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