Discutindo a relação

O falso é às vezes o verdadeiro de cabeça para baixo, anotou Sigmund Freud. Talvez por isso, comumente, a acusação seja o modo de muitos casais se defenderem quando não têm razão.

Concordar: sim! Sim! Sim! Você tem toda razão! Parece a melhor tática de defesa e fuga de qualquer discussão que, de antemão, já se sabe perdida. Por isso, no amor, se odeiam os covardes que oferecem rendição antes mesmo da discussão, sonegando a oportunidade deliciosa de extravasar ali todo ódio e rancor. Afinal de que servem os amantes? Os que batem em retirada podem economizar alguns pratos quebrados e tapas no rosto, mas levarão para sempre o carimbo de frouxos e o desprezo daqueles que fogem à luta.

Entre os niamniam, castiga-se a esposa infiel cortando-lhe as pontas dos dedos. Já o sedutor duma moça virgem é condenado à perda de três dedos. Tudo se resolve assim na esfera digital.

Já os schilucks obrigam a mulher a revelar, logo após o primeiro parto, com quem manteve relações sexuais antes do casamento e, como desafronta, cada um dos ex-namorados deve oferecer ao marido corno a recompensa de um boi. Com chifres, ça va sans dire.

Entre os bajoros, a mulher pode, por um pote de cerveja, ser perdoada do adultério. Da boa.

Os bongos, entre os quais não se admitem mais de três esposas para cada um, cultivam a fidelidade conjugal. A relação tem assim discussão grupal.

Há agora, nesses tempos de auto-ajuda, uma série de livros empoderadores. Um deles se intitula “Casais que lucram”. Outro é: “Vendedoras boazinhas enriquecem” (esqueceram de dizer: enriquecem os patrões). Outro ainda: “Casais Inteligentes enriquecem juntos”.

Tem feito sucesso notável a linha editorial DR: discutindo a relação. O marketing das promessas e das revelações se exibe nos enfáticos pontos de exclamação: “Felicidade Agora! Os Segredos do Relacionamento!”, “O Problema não é Ele; é Você!”, “Salve o seu Casamento!”. Pode-se imaginar quanto custará cada ponto de exclamação.

Outra linha valoriza a experiência dos mais velhos, já que os jovens demandam cuidado e atenção que os mais experientes não têm mais tempo para dedicar. Uma velha atriz admirava os jovens, mas reclamava que demandavam aprendizado e tempo, algo de que ela já não dispunha: os jovens perguntam a toda hora se são amados e estão sempre a vigiar os parceiros. Acham que o mundo acabará amanhã, algo de que os velhos têm certeza e, por isso, cuidam de dedicar os momentos que restam àquele encontro que bem poderá ser o último.

Mas as melhores indicações estão reunidas na edição fast express do “Cuide de seu Casamento em até 5 Minutos por dia”. Vem agora com um manual kama sutra de rápidas posições para o prazer. Mas não revela se deve ser lido com as pernas abertas ou fechadas.

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