O Caçador de Marajás, reloaded


 

Sem a necessidade de dinheiro ou milhas, vamos viajar no tempo, tempos de Morcego Negro, o jatinho de Collor. Potencialmente produtiva em termos eleitorais, a briga entre o então governador das Alagoas e as corporações de seu estado, especialmente a representada pelos nababos do judiciário local, rendeu ao primeiro presidente da república eleito de forma direta após a ditadura militar o título de caçador de marajás do serviço público. 

Entre seus fiéis escudeiros, brilhava, ainda com cabelos revoltos e não implantados, Renan Calheiros. Para inglês ver ou não, o fato é que a luta contra descabidas vantagens e indefensáveis benefícios arrancados do povo indefeso seduziu boa parte da população, na época cansada de ver o inesquecível bigodudo maranhense atolar brasileiras e brasileiros na movediça espiral inflacionária que sufocava o assalariado comum. E mais ainda quem sequer recebia salário. A exceção à compressão do poder aquisitivo residia nos contracheques dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, principalmente à corporação que podia mandar pagar sob as penas da lei. As nababescas benesses eram salvaguardadas por meio de infinitos penduricalhos reajustáveis. 

Uma vez ampliada a cívica contenda pelas redes de tevê nacionais, não tardou que Collor saísse de seus provincianos 2% para collorir boa parte do mapa político brasileiro. 

Noves fora o debate da Rede Globo no segundo turno, e a posterior edição do Jornal Nacional que derrotaria os Nove Dedos, a afronta ao contribuinte e, sobretudo, a aqueles que só pagam impostos via consumo de gêneros de primeiríssima necessidade, o discurso mostrou-se perfeito para a arte de seduzir eleitores, angariar adeptos e conquistar aliados. 

Não por outra razão, Renan, alvo de inúmeros processos, de pensão judicial terceirizada a traficância de influência no ramo de transporte de combustíveis, encontrou gás na fossilizada caça aos marajás, aparentemente soterrada pelo desmoronamento moral da casa da Dinda, em cujos escombros puderam ser salvos alguns modelos Ferrari e Lamborghini. 

Craque que brinca nas onze posições de vítima, com domínio absoluto da prerrogativa de foro, porém não mais das emoções que já afloram gravata afora, Renan recorre às memórias da corrida presidencial de 1989 para enfrentar a Lava-jato, bem como as questões de foro íntimo levadas à Corte Suprema. Estrategista em desespero, o presidente do Senado aproveita as crises fiscais agudas que paralisam Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul para propor uma nova cruzada contra os marajás que sangram os cofres públicos. Prega a austeridade absoluta no trato com o erário. Seria em nome dos descalços, descamisados e dos sem smartphones? Desse jeito, Cabral vai dançar antes dele.

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