Barata Ribeiro 716 (BR 716) - Um cineasta octagenário em plena forma

Domingos de Oliveira tem uma linguagem bastante particular em seus filmes. Há sempre um forte componente nostálgico e autobiográfico na obra do cineasta de “todas as mulheres do mundo”. Neste BR 716 ele conta a história de um apartamento na Barata Ribeiro onde a festa nunca acaba. Trata-se de uma república da farra, onde tudo o que acontece, desde sentimentos, emoções e até reflexões intelectuais, são turbinados com doses generosíssimas de vodka, uísque, cachaça ou qualquer outra bebida que esteja disponível. O filme é passado nos anos 60, mais exatamente no inicio de 1964. O ambiente político é tenso, os jovens mais engajados nas metrópoles acredita na utopia socialista, no mito Che Guevara e na luta armada, embora na prática passem a maior parte do tempo cuidando de seus prazeres. Esse paradoxo da juventude da época é muito bem retratado pelo autor que, entre gritos e palavras de ordem, pratica a cafajestice bem humorada tão comum ao mulherengo cheio de conversa fiada e de devaneios teatrais. Sob um olhar crítico tudo parece artificial aos olhos de hoje, mas é especialmente saboroso ver aquele festival anárquico de sonhos, de descoberta de um amor mais livre e de quebrar as barreiras da caretice. A câmera de Domingos reflete esses diversos olhares, sugerindo talvez uma solidária embriaguez, muitas vezes torta, outras vezes desfocada, de cima (plongée), na linha do rodapé (contre-plongée), e acaba estabelecendo uma linguagem fílmica que ajuda a dar forma àquele desenrolar de cenas que, na verdade, compõem um mosaico. O Rio, na época, era conhecido pela menina que ia a caminho do mar, deixando um rastro de sensualidade e estabelecendo a paquera e os gracejos como patrimônio nacional, tão diferente de hoje quando as pessoas querem blindar os seus carros para se afastarem da violência que virou uma epidemia na cidade.

O novo filme  de D.O. pode não ter o mesmo impacto de “Todas as mulheres do mundo”, “Edu coração de ouro” e “A separação”, mas tem um frescor delicioso que, entre outras coisas, acaba sugerindo simpáticas homenagens a Chaplin, Fellini e aos grandes dramas americanos dos anos 50. A trilha sonora, muito bem escolhida, ajuda a encontrar as referências.  Caio Blat está ótimo no papel de Felipe, alter ego do diretor. Ainda no elenco boas atuações de Sophie Charlotte, Maria Ribeiro, Gabriel Antunes e Sergio Guizé.   

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