Abre-te sésamo!

28/11/2016

Avesso que sempre fui às novelas e a tudo que lhes diz respeito, aos poucos venho me rendendo às séries, iniciado pelas duas temporadas da excepcional Roma, da BBC.

As superproduções que surgiram a partir dali foram corrompendo as minhas convicções: Breaking Bad, Vikings, Black Sail… E, agora, por sugestão do amigo Chalon, estou atado aos 74 capítulos de Pablo Escobar - El patrón del mal.

Mas toda essa historinha foi só um preâmbulo para uma súbita constatação: a vida, no Rio, é muito mais rica (para alguns chega a ser faraônica) e intensa, do que toda essa rebuscada ficção.

Melhor ainda - é um pouco de tudo.

Dos tesouros à deriva, na praia da Urca, às jóias desaparecidas de Madame Lurdinha, a realidade é muito mais contundente do que as farsescas cenas de Black Sail.

O Corsário de agora (trocadilho infame com El Vice Rei e suas revendas de automóveis), com sua alva bandana à testa e cara de bebum, transforma os piratas da literatura e do cinema em vilões açucarados, inverossímeis não pelo exagero, mas pela ingenuidade.

A lenta transformação do pacato Walter White no sociopata rei das anfetaminas, em Breaking Bad, não é nada comparada aos personagens de nosso cotidiano que, em pouco mais de quinze anos, se apossaram de nossos palácios. Pessoas a quem nomeamos tutores do nosso destino que não se limitaram a comer as sobras - levaram o restaurante inteiro pra casa.

O tamanho e ramificações das quadrilhas fariam corar de vergonha a D. Pablo Escobar Gaviria.

E a entourage, de quem ainda não vimos os nomes? Eles são verdadeiramente como um iceberg, submerso.

Falta alguém dar a deixa: abre-te sésamo! E haja cela pra tanto ladrão.

O que sairá, por exemplo, da delação de Fernando Cavendish Soares (outro Fernando Soares), com sua emblemática companhia Delta? Que triangulações foram feitas, por exemplo, na construção do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro?

Quanta sujeira ainda está por descer na enxurrada?

A repetição seria insuportável. A lista é extensa. Chega do mesmo.

Não são apenas os bandidos nem a história que se tornaram caricatos nessa trama de quinta. O que me trouxe ao tema foi o subtítulo de uma notícia no site de Veja.

Por cautela, acredito, às vésperas da Lei de Responsabilidade do Correligionário “Corisco das Alagoas”, abaixo do título “Joalheria entrega Nota Fiscal de Cabral no valor de R$ 600 mil”, estava essa preciosidade: “PF suspeita que Cabral usava jóias para lavar dinheiro.”

Como assim suspeita??? Quando terá certeza?

Eu acho que o casal vivia um enorme fastio.

Cofres abarrotados, casas aqui, acolá e além-mar, iate, helicóptero… Acho que Lurdinha e J Cabra estavam brincando de pirata, inspirados, talvez, nas bravatas de Errol Flyn e Olivia de Havilland. Só pode ser.
Tenho a convicção de que, em algum lugar, se ainda não foi subtraído de algum cofre, ou atirado às águas da Baía de Guanabara, vai surgir um baú com as pedras preciosas que povoaram suas fantasias de Captain Blood.

As gemas dos sultões das laranjeiras.

 

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