Nós achamos que podíamos

28/11/2016

Eu estava com o texto e a piada prontos. Mas fui ver o filme da Elis e saí mexida. Eu já sabia o final e não era happy. Mas o filme me transpôs a mais que a vida de Elis, me levou à minha vida e à de meus amigos. E aí o resultado disso tudo me deu uma exagerada melancolia, que tive que digerir com um enorme suco de abacaxi e hortelã na esquina.

Há um momento do filme que César Mariano pergunta para Elis: Ok, eu sei o que você não quer, mas o que você quer? E ela responde: Mudar tudo. Tudo o quê?, refaz ele. Tudo, diz ela: casa, músicas, músicos, tudo (e subtende-se aí “você, inclusive”.)

Elis achou que podia. Mudar tudo, fazer tudo, ser tudo. 

E não pôde.

E dá uma tristeza imensa ver a menina cheia de sonhos, vibrando no início da carreira, alegre e feliz, destemida, corajosa, com aquela voz incrível, caindo, despencando, numa angústia exagerada, sentindo-se perseguida, sozinha, infeliz.  Até morrer por overdose. 

Triste fim de uma menina cheia de talentos e planos. E aí pensei em mim, pensei na gente. A gente também achou que podia. Meu amigo X, engenheiro pós-doctor, hoje cria pássaros e traduz livros. Meu amigo Y, economista exponencial, hoje vende produtos de beleza. Meu amigo Z, publicitário de sucesso, negocia planos de saúde.  Minha amiga mais estudiosa trabalha numa gráfica. A apaixonada por Shakespeare está na Amazônia, atracando navios. Meu primo está na Suíça e não volta por falta de opção. Várias amigas, com diplomas à mão, estão à cata de programas 0800, porque não têm dinheiro para pagar nada. Eu não estou fora da roda: continuo a me sentir como minha mãe lamentava, “um talento desperdiçado”, com a sensação de produzir muito menos do que poderia, ou gostaria. 

Fracassamos? Talvez sim, talvez não, depende de cada um e de cada ponto de vista. Mas com certeza achamos que podíamos mais. Nossos pais, aos 60 - um pouco mais, um pouco menos -,  já tinham muito mais sucesso profissional (em geral, exerceram até o fim a carreira planejada) e financeiro que nós - o que nos deixaram como patrimônio com certeza não seremos capazes de deixar para nossos filhos.

Desilusão? A mim sim. Aos outros, imagino que também. Achávamos que podíamos, mas por conta do Brasil, quiçá da globalização, do sistema de trabalho massacrante, dos roubos dos políticos, de nossas ansiedades, de nossos limites, não estamos onde queríamos ou planejávamos.

Em contrapartida, estamos vivos. Não sucumbimos feito Elis e outros tantos. Estamos de pé, firmes, em busca da vida e do prazer de cada dia. Por isso as músicas de Elis nos tocam a alma. Vivemos O Bêbado e a Equilibrista, vivemos Como nossos pais, Atrás da Porta, Fascinação, Maria, Maria, Dois pra lá e dois pra cá e tantas outras. Passamos por tudo isso, e cá estamos, aproveitando o que somos e temos. 

Sim, achamos que podíamos, que iríamos mais longe, que teríamos mais, que seríamos mais bem-sucedidos, mais “realizados”. No entanto, estamos aqui!  Elis partiu com 36 anos (36 anos, caio em mim, chocante!) e nós já viramos meio-século. Seguramos a onda e estamos aqui, perdão pela insistência, sãos e salvos. Divido com meus amigos essa vitória, enquanto arrumo minha casa para o convidado que vai chegar. Sorrio para mim mesma e sozinha penso: eu estou aqui, vivíssima, ainda com projetos e desejos.  Definitivamente, não é pouca coisa. Tin-tin! 

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